At Eternity’s Gate (No Portal da Eternidade) – 2018

As controvérsias em torno dos dias finais de Vincent van Gogh ganharam força nos últimos dez anos com a publicação de novas biografias e trabalhos acadêmicos. At Eternity’s Gate (No Portal da Eternidade, no Brasil) surpreende por ter um roteiro que se desenvolve justamente a partir destes trabalhos recentes, tomando uma posição para tentar explicar eventos como a passagem do pintor em Saint-Rémy e sua morte.

Dirigido por Julian Schnabel, a proposta do filme é típica do gênero cinema de arte, voltado para um nicho muito específico. Neste caso, a apreciação do filme requer prévio conhecimento, por exemplo, sobre os problemas do pintor (Willem Dafoe), sobre sua relação com Paul Gauguin (Oscar Isaac) e com seu irmão, Theo (Rupert Friend), e sobre a natureza das suas obras. O filme nunca tenta propor um diálogo aberto e nem contextualiza o que toma lugar, marcando pontualmente na narrativa apenas os locais que abrigaram Van Gogh em seus últimos anos de vida.

Os experimentos na montagem e fotografia podem ser compreendidos de duas formas: a primeira é dentro da perspectiva autoral de Schnabel. A câmera livre, sem qualquer tipo de estabilização, segue Van Gogh e da mesma forma que engata movimentos bruscos, gera um interessante paralelo entre tomadas exuberantes com o estranhamento pela excessiva movimentação e enquadramento pouco usual. Outra leitura que pode ser feita é a de que Schnabel e seus produtores abusaram tanto de um estilo diferenciado que o resultado final é genérico. Gosto muito do trabalho do diretor de fotografia Benoit Delhomme, mas não aprovei a mudança de eixo proposta aqui. O consenso seria na rica paleta de cores promovida no filme, sem dúvida o ponto forte da produção.

A indicação de Dafoe ao Oscar não pode ser encarada como surpresa, já que a Academia tem um histórico de prestigiar filmes deste tipo – com um protagonista forte e com um desenrolar que promove um personagem de grande relevância. Mas é nítido que o casting do ator – pelos padrões tradicionais – poderia ser questionado, já que Dafoe tem 63 anos e boa parte do longa conta a história de Van Gogh em seus 30 anos. A comparação direta, por exemplo, com outros personagens do filme a partir do próprio casting expõe a enorme diferença de idade entre os personagens. Mas na visão de Schnabel isso pouco importa – apenas a atuação deve ser levada em conta. E Dafoe, neste sentido, tem o filme inteiro construído a partir de seu personagem e faz isso muito bem, com linhas de diálogo fortes e feitas a partir de um claro trabalho histórico.

Van Gogh por Van Gogh, confesso que Loving Vincent tem mais efetividade por estimular o espectador de forma diferenciada, propondo pesquisas complementares. Já At Eternity’s Gate mistura história e ficção para promover uma conclusão que sequer é bem aceita na comunidade acadêmica.

NOTA: 6/10

IMDb

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