Bird Box – 2018

No livro Guia de Cinema 2017, escrevi um artigo sobre o potencial crescimento da Netflix e a ameaça à indústria cinematográfica tradicional. Se é verdade que a gigante do streaming tem recursos suficientes para investir em conteúdo de qualidade, também é fato que parte de suas decisões são voltadas para atingir o maior número possível de espectadores. É mais fácil, seguindo esta linha de raciocínio, colocar um grande nome de Hollywood como protagonista de um filme medíocre do que dar espaço para jovens talentos do cinema independente – já que poucos dariam chance para seus filmes. Bird Box, é o perfeito exemplo disto. Sem inspiração, a trama com roteiro de Eric Heisserer surpreendentemente não desenvolve a personagem principal, dá pouco espaço para a história em si e foca em fatores secundários passáveis, como a dinâmica de grupo. Fora isso, a marcação temporal adotada deixa aberto um período considerável de tempo que sequer é mencionado no filme.

Malorie (Sandra Bullock) está em um barco com duas crianças pequenas (Julian Edwards and Vivien Lyra Blair) e todos usam venda nos olhos. Por qual motivo? Bem, para começar a responder é proposto voltar cinco anos atrás na história e observar o início de uma crise de suicídios (que não é explicada definitivamente). O filme, portanto, começa com um clímax, volta a partir de flashbacks e constrói sua tensão em cenas dentro deste intervalo proposto.

Poderia citar um número alto de incoerências narrativas captadas logo na primeira exibição do filme, mas o que me chama a atenção é a forma como a Netflix se curva às exigências dos grandes atores e atrizes em detrimento da história. Neste caso, tenta-se montar um mundo perigoso e sem recursos, com falta de comida – mas o trabalho de maquiagem da protagonista é bizarro – lembrando o absurdo que testemunhei em Queen of the Desert, com Bullock com um make perfeito mesmo após quarenta horas dentro de um barco. É um detalhe pequeno, mas que mostra que nem a produção se preocupa com a credibilidade da história que tenta passar.

Confesso, no entanto, que os nomes em torno da produção sugeririam uma sorte melhor nesta produção: a diretora dinamarquesa Susanne Bier tinha a chance de se redimir nos EUA após o fracasso estrondoso de Serena (2014) – e Heisserer foi o responsável por Arrival, um dos grandes filmes deste século.

A Netflix é diretamente culpada por um filme ruim? Não, toda produtora e distribuidora tem suas falhas anuais, e Bird Box até poderia entrar na cota da gigante do streaming. Mas o processo interno da Netflix, infelizmente, segue no investimento em grandes nomes do que na história propriamente dita. E a divisão de filmes, ao contrário da divisão de séries, parece pouco disposta a mudar este rumo já que são justamente estes grandes nomes que dão o resultado de visualizações, claro, contando com um marketing caprichado. A impressão final, portanto, é a de que a Netflix abraçou definitivamente um tipo de produção com uma marca apelativa forte e com uma divisão narrativa simples de três atos, tornando contratos pontuais de distribuição como Roma apenas em negócios de ocasião.

Bird Box não tem força alguma para sustentar a tensão que tenta avançar. Uma rápida comparação com A Quiet Place é o suficiente para desconsiderar este longa como um thriller. Uma pena.

NOTA: 3/10

IMDb

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