Ztraceni v Mnichove \ Lost in Munich – 2016

O cinema tcheco passa por uma fase de grandes reformulações. A New Wave que encantou o mundo na década de 1960 formou uma competente geração de diretores, que aproveitaram o brilho da indústria da antiga Tchecoslováquia, com mentores como Jiří Menzel e Jaromil Jireš. Ainda assim, a situação atual é complexa: as boas cabeças que trabalham com cinema no país infelizmente sofrem restrições por conta do orçamento restrito imposto pelo governo para a área de cultura, além das várias burocracias com o Eurimages, fundo de auxílio da União Europeia. A opção fácil é sair e trabalhar na Alemanha ou na França, onde o talento é valorizado. É por este motivo que pouco se discute sobre as produções do país – e isso se reflete na baixíssima quantidade de filmes que conseguiram destaque neste milênio. Ztraceni v Mnichove (distribuído internacionalmente como Lost in Munich) trabalha essa questão de forma bastante efetiva, utilizando com inteligência uma das maiores feridas da história do país.

O começo do filme sugere um documentário ao estilo de um noticiário da Segunda Guerra Mundial. O intuito é informar ao espectador sobre o Acordo de Munique, assinado em 1938 por  Chamberlain, Daladier, Hitler e Mussolini. Os nazistas ocuparam a Tchecoslováquia sem tocar em uma arma, fato que causaria uma profunda ruptura no povo do país, que acusava os britânicos e especialmente os franceses de traição. Assim que a base contextual é estabelecida, a narrativa toma outro rumo e parte para a análise de um caso fictício de 2008, quando o papagaio que pertencia a Édouard Daladier é levado para um encontro sobre o Acordo de Munique. Um jornalista que cobre o evento (Martin Myšička) se interessa pelo animal e descobre que o mesmo ainda fala frases na voz de Daladier.  “Hitler foi uma grande pessoa” ou “os tchecos são porcos” causam um grande desconforto diplomático entre franceses e tchecos. Mas Lost in Munich demonstra uma ambição tremenda ao desconstruir tudo o que foi apresentado na metade inicial do filme para propor um mockumentary no qual a traição de Munique é replicada a partir de um olhar apurado sobre o panorama do cinema local.

A direção de Petr Zelenka (talvez o maior nome em atividade em seu país) é sólida e faz a transição dos arcos narrativos de forma agradável. Lost in Munich é o tipo de filme que abusa das pegadinhas visuais, desafiando o público em um considerável número de situações para testar a atenção. Começa como documentário e termina como uma comédia ao mesmo tempo que visa a abertura de uma discussão sobre o vitimismo tcheco nascido em 1938. Por conta dessa proposta diferente, o filme foi escolhido por aclamação para representar a República Tcheca no Oscar 2017.

NOTA: 7/10

IMDb

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