Z – 1969

Costa-Gavras é o maior nome da história do cinema político. Seus atos de resistência através dos filmes são exemplos até hoje, com inúmeras discussões de alto nível dentro da Academia. Z (Z – A Orgia do Poder, no Brasil) é uma das produções mais lembradas quando o assunto é Estado policial e seu subsequente cercamento e opressão as opiniões.

O governo da Grécia – local de nascimento de Gavras – foi alvo de uma série de controvérsias no começo da década de 1960 – que seria apenas uma fração do que viria mais adiante. Com gabinete fortemente controlado pelos militares, existia uma firme pressão para deixar de lado qualquer tipo de ameaça comunista, em um período em que se dizia que a Itália, por exemplo, poderia se alinhar aos soviéticos. Gregoris Lambrakis era um dos parlamentares mais ativos na esquerda, pedindo pelo fim do Estado policial e pelo distanciamento da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Ele seria o nome em torno do movimento pacifista, que fez importantes marchas, sendo a mais conhecida delas a histórica caminhada de Maratona à Atenas, em 1961, quando seus demais companheiros foram presos pelo governo e Lambrakis acabou a manifestação sozinho, graças a sua imunidade parlamentar. Visto pelos governos de esquerda da Europa como um aliado e pelos militares como a maior ameaça ao que eles chamavam de ‘democracia’, não demorou muito para Gregoris Lambrakis se tornar um alvo político. Em 1963, após sair de um discurso de paz, ele foi assassinado com um golpe na cabeça por dois homens de extrema direita.

A ideia de Costa-Gavras surgiu após a leitura do livro homônimo ao filme, escrito por Vassilis Vassilikos logo após o assassinato de Lambrakis. A análise da política grega e a fortíssima crítica aos militares pela obstrução de justiça rendeu ao autor uma sentença de ‘banimento eterno’ do país, revertida somente após o fim da ditadura. A pressão da junta liderada pelo General Georgios Zoitakis para evitar qualquer tipo de ataque direto ao governo – sempre com a ameaça de exílio – foi a motivação perfeita para Costa-Gavras se destacar no campo do cinema político. Seu filme anterior, Un homme de trop, teve boa recepção na França e foi aplaudido no Festival de Moscou sem, no entanto, chamar a atenção do mercado grego ou estadunidense.

A introdução espetacular e memorável de Z é essencial para qualquer aula sobre repressão política. Os líderes do governo grego pregam o combate ao que eles chamam de fundo do extremismo e do comunismo. Detalhando um plano para a eliminação dos mesmos e a volta de uma agradável ambiente, as etapas para tal passam de uma forte doutrinação na escola até a Universidade. O fungo do esquerdismo, para o governo grego, era uma doença que precisava ser pulverizada antes que a sociedade ficasse com marcas profundas.

Z é uma alegoria das violações de direitos humanos. Gavras cria um ambiente de tensão sentido pelo espectador desde o primeiro minuto. A fidelidade das perseguições nas ruas e a interferência completa dos militares no dia a dia (algo também visto em Missing) demonstra como o aparelhamento do governo é utilizado para intimidar e silenciar a oposição. No filme, o deputado pacifista baseado em Lambrakis (Yves Montand) é alvo do ataque dos manifestantes de direita, que são prontamente acobertados pelo governo em uma conspiração que envolve o alto escalão. A investigação é conduzida por um juiz (Jean-Louis Trintignant, baseado na figura de Christos Sartzetakis, mais tarde presidente da Grécia) que decide bater de frente com os militares.

A trilha sonora de Mikis Theodorakis é uma das mais impressionantes da história do cinema. Ela dita o tom de terror que torna cada passagem do filme vinculada a ideia apresentada logo na introdução. A letra Z, que dá título ao filme, foi banida na Grécia durante o regime militar que, através de um golpe de estado dado em 1967, proibiu as eleições diretas. Mais de meio milhão de pessoas gritaram “Lambrakis vive!” (Lambrakis zi!) em seu funeral. Para a esquerda, Z era o símbolo da liberdade. Para os militares, Z era símbolo de discórdia. A marca de Z é inegável. Nomeado ao Oscar de melhor filme e vencedor do prêmio de melhor filme estrangeiro (algo raríssimo), Costa-Gavras teve um dos mais eficazes casos de marketing boca a boca já registrados, tornando sua produção a nona mais vista nos EUA, em 1969. Com o estrondoso sucesso de bilheteria, o grego conseguiu financiamento para importantes filmes como L’aveu (1970) e État de siège (1972), além de se tornar um dos intelectuais mais ativos contra o governo de seu país.

NOTA: 9/10

IMDb

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