Blizna (A Cicatriz) – 1976

O primeiro longa de um diretor é muito interessante para análise, pois através deste conseguimos identificar padrões estéticos e narrativos que podem ajudar na tentativa de estabelecer um retrato concreto sobre sua filmografia.

No caso de Krzysztof Kieslowski, Blizna (A Cicatriz, no Brasil) é um poderoso longa sobre a política polonesa no conturbado período do regime de Władysław Gomułka. Krzysztof desde cedo mostrou interesse em analisar de forma crítica o regime comunista instalado em seu país, e viu no cinema a forma perfeita para expressar seu descontentamento com a burocracia que atrasava o país. Ele não era um anti-comunista, tampouco defendia ferrenhamente os Estados Unidos: ao contrário, ele apostava que com muito diálogo seria possível trazer de volta a Polônia dias de glória e tranquilidade.

E é justamente no diálogo que Blizna está centrado. Stefan Bednarz (Franciszek Pieczka) é chamado para coordenar a construção de uma fábrica de produtos químicos na pacata cidade de Bednarz. Ao chegar na região, ele se depara com uma realidade totalmente diferente da que ele esperava: os moradores deixam claro que não querem, de jeito nenhum, perder suas casas e a mata virgem do local para dar espaço a um empreendimento deste nível. Do outro lado, membros do Partido Comunista polonês discutem internamente como aliviar a situação e acalmar os ânimos da população.

Podemos dividir o filme em duas partes: enquanto a primeira está voltada no debate entre políticos e população, a segunda está centrada no protagonista. É interessante acompanhar como a honestidade de Stefan o perturba. Ele poderia facilmente mandar a polícia prender os manifestantes ou fechar os olhos perante a situação, mas no fundo ele nutre certa simpatia pela causa defendida pelos moradores. Eles não querem alterar a rotina daquela cidade.

Krzysztof Kieslowski aposta em um filme por vezes muito sombrio e com pouca música.  Seu roteiro é aliado a uma boa fotografia, que aposta nas salas fechadas para retratar a burocracia e os jogos internos dos políticos, enquanto várias tomadas na rua e nas florestas mostram o descontentamento do povo.

Infelizmente o filme tem um final muito aberto e agradável. Isto é bastante negativo, especialmente se levarmos em conta que toda narrativa trabalhada em torno dos direitos do cidadão e da discussão é deixada de lado. Ao invés de lutar pelo que acredita, Stefan parece estar e acordo com a mesma burocracia que tanto o incomodava e continua sua vida. O longa encerra com o plano de fundo dos protestos que assolaram o país e 1970 e a certeza de que poderia ter explorado mais o campo político e menos o drama do protagonista na hora final.

NOTA: 6/10

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