The Act of Killing (O Ato de Matar) – 2012

Indicado para o Academy Award de melhor documentário, The Act of Killing (O ato de Matar, no Brasil) é forte e repugnante. O diretor dinamarquês Joshua Oppenheimer foi atrás de alguns dos responsáveis pelas matanças na Indonésia nos anos de 1965 e 1966, naquele que se transformaria em um dos maiores massacres do século XX. Quase três milhões de pessoas foram mortas por serem consideradas comunistas pelo governo de Suharto, que criou uma organização paramilitar (Nova Ordem) que abertamente adotava práticas de tortura dos tempos da Gestapo.

O documentário é chocante! Um dos entrevistados foi o responsável direto pela morte de mais de 1000 pessoas. Além de viver uma vida confortável, ele diz que se inspirou em Al Pacino, Marlon Brando e John Wayne. Este senhor – Anwar Congo – desenvolveu uma técnica para deixar os centros tortura (que na verdade eram locais de abate de humanos) mais limpos: ao invés de cortar a cabeça das pessoas, ele as estrangulava com um cabo de aço. Sua inspiração: os filmes de ação protagonizados pelos galãs citados anteriormente.

É difícil acreditar como que uma pessoa destas pode ser considerada herói nacional. Tentei trazer a história do filme para a realidade brasileira. Imagine entrevistas um militar responsável pela morte de vários comunistas no nosso país. Agora pense que esse cara não tem remorso nenhum de seus atos. Pensou? Então agora pense que todos, desde o jornaleiro até a maior estrela de televisão, todos aplaudem seus atos. É absurdo! Mas na Indonésia é assim. Em uma entrevista, uma jornalista perguntou para os torturadores se eles não temiam pela vingança dos filhos dos mortos pelo governo Suharto. Os caras riram e afirmaram: “não é possível isso acontecer. Nós exterminamos todos eles!” A sequência de gargalhadas é de causar revolta. Na verdade, esse pessoal considera, até hoje, os comunistas como a escória da sociedade. Eles são vistos como predadores do estado. Ou seja, eles são leões que ameaçam um vilarejo. Devem ser executados para preservar a integridade do povo.

O diretor também explora, de forma brilhante, o submundo da política da Indonésia. Os torturadores se autoproclamam gangsters. Eles falam isso com a maior alegria, pois, como já escrevi anteriormente, a inspiração maior deles são os filmes de Hollywood. O vice-presidente da Indonésia aparece em uma conferência citando a importância deste grupo para a defesa dos interesses nacionais. A elite de torturadores se mantém no poder até hoje graças à compra de votos e a troca de favores. É impressionante! Um político chega a afirmar no filme que ninguém da Indonésia acredita nas propostas de campanha. Ganha o candidato que mais trouxer “bônus” (leia-se dinheiro) para a região. A votação seria uma novela, e os eleitores seriam os atores que interpretam um papel para a comunidade internacional.

Crimes de guerra? Não, isso é tratado como uma piada por lá. Um dos torturadores afirma que “crimes de guerra são definidos pelos vencedores. E nós somos vencedores”. Eles não se preocupam com uma tentativa de reescrita da história porque ninguém tem a coragem suficiente para fazer isto. Tentar publicar algo contra a elite que se mantém no poder é assinar a sentença de morte. Um torturador ainda brinca com o fato de que os generais argentinos foram julgados pelos seus crimes após o fim do regime militar. Na Indonésia, segundo ele, “direitos humanos não existem na revolução.”

Poderia citar mais uma porção de citações. Todas fortes e inaceitáveis. Deixo o convite para análise e reflexão deste longa. The Act of Killing é um dos documentários mais impactantes que você vai ver em sua vida. Um dos retratos mais claros sobre a propagação do mal. Único. Assustador.

NOTA: 9/10

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