Yesterday – 2019

A premissa de Yesterday, novo filme dirigido por Danny Boyle, é fantástica e muito atrativa: e se – em uma realidade alternativa – os Beatles nunca tivessem existido? E o que aconteceria – aceitando esta conjuntura narrativa – se apenas um homem em todo mundo lembrasse das letras e das melodias e tomasse para si o sucesso do lendário conjunto inglês? O cinema e a literatura gostam de brincar o “e se?” – geralmente envolvendo linhas de ficção que exploram o sobrenatural e o improvável.  O filme lança ao público essa simples ideia de que, de algum modo, os Beatles foram apagados da história, e isto é o suficiente para conseguir a atenção e daria um belo roteiro. O problema é que nem toda boa ideia reflete em um bom filme.

Um apagão ocorre no mundo inteiro – justo no momento em que Jack (Himesh Patel) sofre um acidente.  Ele é um cantor que tenta dar o máximo para conseguir a tão sonhada carreira de sucesso neste competitivo meio. Já no hospital (e sem dois dentes), Jack brinca com sua amiga Ellie (Lily James), com uma menção à canção When I’m Sixty-Four. A moça – no entanto – não compreende. Jack só tem noção de que algo bizarro ocorreu após começar a cantar Yesterday para um grupo de amigos, que pensam que a letras foi escrita pelo rapaz, parabenizando-o pela beleza da composição.

Boyle não perde muito tempo explicando sobre essa linha temporal alternativa. Além dos Beatles, algumas outras coisas também deixam de existir (como a Coca-Cola). E a grande ideia deixa de ser elemento central do roteiro para dar lugar para uma comédia romântica. Achei engraçado que o marketing do filme – como trailers e material de divulgação – diminuem essa vertente e posicionam a construção de um mundo sem Beatles como o eixo principal do filme. Infelizmente, não é.

A questão macro deste filme é tratada de forma extremamente simples: Boyle sequer tenta estimular algum tipo de visão crítica sobre o que seria da música sem os Beatles, como se eles não tivessem influenciado milhares de bandas e compositores ao redor do mundo. Da mesma forma, me pergunto se um clássico como I Want to Hold Your Hand teria, em 2019, o mesmo poder que teve em seu lançamento original, em 1963. A trama, ainda assim, teria salvação: algumas cenas têm potencial (como a batalha do protagonista de lembrar as letras das músicas), mas tudo fica de lado para dar lugar a um romance tipico do roteirista Richard Curtis.

Mas não me interprete de forma errada: Curtis conseguiu fama e sucesso com boas rom-coms. Mas o envolvimento de um forte questão moral (ele deve ou não plagiar?) com a linha de romance não convence nem um pouco. E o energético ato inicial de Himesh Patel, destacando seu carisma e competência, vira apenas um motivo extra para lamentar as decisões do roteiro, já que o ato final trata de apagar a impressão positiva anterior.

Yesterday não soube definir sua diretriz central de argumentação – começando na ficção especulativa e terminando como uma sátira musical. Apesar de ser ótimo ver este tributo aos Beatles na tela do cinema, infelizmente faltou capricho de Boyle, visivelmente perdido no esquema proposto por Curtis.

NOTA: 6/10

IMDb

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