The Birth of a Nation (O Nascimento de Uma Nação) – 2016

The Birth of a Nation (O Nascimento de Uma Nação, no Brasil) conquistou Sundance. O leilão feito pelas distribuidoras dos Estados Unidos para garantir os direitos do filme tomou as páginas dos principais veículos especializados de cinema, já que a soma de 17 milhões de dólares pagos pela Fox Searchlight não apenas foi a maior da história do festival criado por Robert Redford, como também um importante marco na história do cinema negro, constantemente humilhado por Hollywood. No último ano, a falta de diversidade nas nomeações ao Oscar gerou uma série de debates – com reações de diversas pessoas importantes da indústria. The Birth of a Nation  – que já mostra uma grande identidade ao bater de frente com o título do clássico de  D.W. Griffith – ficou boa parte deste ano como o grande favorito aos principais prêmios da Academia. Em agosto, no entanto, o diretor e protagonista Nate Parker teve seu nome envolto em polêmica após a mídia revelar uma acusação de estupro no ano de 1999 junto de Jean McGianni Celestin, roteirista. A resposta negativa do público trouxe apenas prejuízos para a Fox: The Birth of a Nation foi lançado em outubro ao invés da janela de dezembro, com péssimos índices de bilheteria.

Nat Turner (Parker) é um escravo da plantação de Samuel Turner (Armie Hammer), na Virgínia. Ao contrário de seus pares, Samuel ao menos evita desrespeitar os negros. Nat, que aprendeu a ler na infância, desenvolve um interessa na Bíblia e espalha a palavra de Deus com paixão e vontade em outras plantações (em um negócio que acaba enchendo os bolsos de seu dono). Mas ao verificar as condições precárias e os abusos cometidos contra seus semelhantes, Nat não só revela o racismo enrustido de Samuel, como o grande nível de podridão intelectual dos brancos da região.

É na transição de Nat Turner que The Birth of a Nation ganha espírito e forma. A partir da boa fotografia de Elliot Davis, nota-se que o protagonista aos poucos desiste da palavra de Deus para lutar pela vida e decência, pegando em armas e libertando esccravos. Infelizmente as duas horas de filme limitam bastante o sentimento de progressão, já que a revolta histórica de 1831 infelizmente é contada de forma apressada. Sem entrar na questão do caso de estupro (o leitor que se interessar pode clicar aqui para conferir mais detalhes), fica a pergunta: o filme realmente seria candidato a alguma coisa? Na minha visão, a atuação de Parker seria boa o suficiente para arrancar algumas nomeações, mas o filme toma rumos estranhos. A clara impressão é de que Parker manipula seu espectador ao distorcer a história original de Turner. Alguns fatos são omitidos e outros são gerados para causar comoção. Por isso é normal notar que a audiência estadunidense aplaudia cenas de morte brutais, pouco contextualizadas. A história de heróis negros que lutam contra a opressão branca poderia caminhar apenas pelos registros históricos, mas Parker e Celestin decidiram reescrever as passagens para satisfazer a sede de vingança.

Cabe aqui, no entanto, um reconhecimento: poucos homens em Hollywood têm a coragem de trazer para a tela do cinema histórias que boa parte dos estadunidenses se envergonham. Apesar de seus erros estruturais e grosserias autorais, The Birth of a Nation, ainda que manchado pela polêmica de Parker, é um filme necessário que pode ser utilizado como um ótimo instrumento para o aprendizado sobre as brutalidades da escravidão.

* Screener enviado pela  Fox Searchlight.

NOTA: 6/10

IMDb

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