Free State of Jones (Um Estado de Liberdade) – 2016

Newton Knight. Para seus conterrâneos do sul dos Estados Unidos, um desertor e traidor do exército confederado. Para os leais à União, um herói. Toda essa controvérsia é discutida em Free State of Jones (Um Estado de Liberdade, no Brasil), mais recente filme ambientado na guerra civil que destruiu os EUA no século XIX. Com o roteiro adaptado a partir da análise de dois livros referência sobre o assunto ( The Free State of Jones, de Victoria E. Bynum e The State of Jones, de Sally Jenkins e John Stauffer), o diretor Gary Ross aproveita o tradicional sotaque de Matthew McConaughey para completar um poderoso protagonista, envolto em gigantescas polêmicas durante sua vida.

Newton “Newt” Knight (McConaughey) é um fazendeiro do Mississippi que decidiu se alistar no exército confederado para atuar como médico durante a Guerra Civil. Extremamente desiludido com o conflito, ele abandona o campo de batalha após entender que os confederados lutam pela proteção dos interesses dos mais ricos, e não por uma sociedade mais justa. Com os altos impostos cobrados pelo governo local, ele cria um Estado de resistência em Jones County, chamando a atenção tanto dos moradores locais, que logo abraçam a ideia, como dos Generais sulistas.

Um dos grandes trunfos do filme é de saber discutir a relação entre História e cinema de maneira bastante clara, dentro e fora das telas. Ainda que o resumo da vida de Knight possa soar apressado para o espectador com profundo conhecimento prévio, o resultado é bastante positivo para um filme de 140 minutos de duração. Sim, vários momentos da vida de Knight (como a prisão e tortura pelos confederados, em 1863) ficaram de lado no corte final, mas a complexidade do evento é tão grande que o tempo para discutir tudo o que ocorreu em Jones Country precisaria, no mínimo, de uma mini-serie. Por outro lado, considero extremamente louvável a atitude do diretor e dos produtores criarem um site complementar para discutir cada cena do filme, apresentando inúmeros documentos originais e até mesmo fazendo um mea culpa em questões de estilo.

A produção é bastante eficiente, e apresenta cenários amplos, com um nível de detalhe impressionante, com influência direta dos dez acadêmicos consultados durante as filmagens. A maquiagem é pontual, todos andam sujos e lutam pelas suas sobrevivências. Ainda assim, é possível notar a atenção para objetivos secundários, como o começo da discussão sobre o papel do negro livre na sociedade dos Estados Unidos – que ganha mais poder na medida em que os confederados começam a perder território.

Na questão da narrativa, alguns pecados: todo o filme é montado a partir de técnicas consagradas – talvez com a ideia de Oscar de melhor filme na cabeça. O clímax ocorre em um discurso de McConaughey, que visa enquadrar o rosto do ator para preencher toda a tela – passando a ideia de paixão pela causa. Não tenho problema nenhum com isso, apesar de considerar tal técnica datada, mas no fechamento acontece um anti-clímax que transmite a mensagem de que não é possível apresentar um filme sobre a Guerra Civil com um final feliz. Ora, tal noção, dentro da própria proposta apresentada pelo diretor, não apenas cai em contradição direta, como também levanta questões muito mais complexas, como o surgimento da KKK, por exemplo.

Por conta de sua frustrante bilheteria no mercado estadunidense, a distribuição internacional de Free State of Jones foi duramente atingida, com cancelamentos e adiamentos, como ocorreu no Brasil. Mesmo que não seja o candidato ao Oscar que todos esperavam, os erros técnicos não podem deixar de lado o fato de que estamos tratando de uma ótima adaptação dos livros referência citados anteriormente. A autenticidade é marca principal do filme.

NOTA: 7/10

IMDb

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