Crna macka, beli macor (Gata Preta, Gato Branco) – 1998

É possível fazer um filme vulgar – no sentido amplo da palavra – e, ao mesmo tempo, torná-lo agradável ao grande público e a crítica? Talvez esta seja a pergunta que atormente a vida de tantos e tantos produtores de comédia mundo afora. Afinal, explorar o sexo, seja de forma direta ou indireta, é a certeza de cinema cheio e bons números no home video. O problema é a forma como a erotização extrema de qualquer objeto de um longa metragem vem crescendo assustadoramente, deixando o roteiro de lado para investir em cenas quentes, que parece ser uma tendência dos Estados Unidos.

Quando penso em equilíbrio entre humor e sexo, logo me vem a cabeça Crna macka, beli macor (Gata Preta, Gato Branco, no Brasil), filme do sérvio Emir Kusturica. Lançado três anos após a conclusão de Underground, o diretor recebeu propostas para retornar para os Estados Unidos, fazer uma tour pelo Reino Unido e gravar documentários na Itália. Mas preferiu continuar na sua terra natal, produzindo uma comédia que estava guardada em sua gaveta por vários anos – agora sob pressão para manter o nível de seu filme anterior. O que torna esta película única é a aposta em um humor limpo na tela, mas cheio de malícia nas entrelinhas.

A narrativa envolve os absurdos e as extravagâncias cometidas na organização do casamento do jovem Zare (Florijan Ajdini), de 17 anos com a irmã anã de um importante mafioso na região do rio Danúbio. O casório é arranjado contra a vontade dos dois, e o menino faz de tudo para ficar com sua amada, Ida (Branka Katic), mas é barrado devido a enorme dívida que seu pai com um dos homens mais poderosos da região. Dentre as várias situações apresentadas, a morte e a música caminham juntas em um roteiro que não se preocupa em explorar os buracos que vai deixando conforme a exibição das duas horas de filme.

Como citei anteriormente, as piadas sempre levam em conta o que há por trás da situação real. O cara de nojo do jovem ao olhar para a anã ou a paixão arrasadora da moça por um gigante podem ser interpretadas de inúmeras maneiras. Mantendo o padrão estético de Underground, as tomadas abusam do contraste de cores, que também pode ser relacionado com o elenco, montado a partir de uma mescla de atores profissionais com pessoas normais. A perceptível falta de maquiagem dá uma inesperada sensação de realidade a um filme que acaba com uma bela passagem surreal – no melhor estilo Arizona Dream.

NOTA: 7/10

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