Post Especial #6 – 20 anos de Pulp Fiction

Vinte anos atrás, neste mesmo dia 12 de maio, um seleto grupo de jornalistas e críticos de cinema se reunia em Cannes para prestigiar a sessão inicial do filme que marcaria a década de 1990: Pulp Fiction. Ao assistir o filme ontem pela sexta vez, descobri que ainda fico extremamente impressionado com a quantidade de conteúdo que este filme de Quentin Tarantino oferece ao seu espectador.

O diretor aproveitou da melhor forma possível todo o sucesso que fez com Reservoir Dogs. Ele foi inteligente e criativo a ponto de renovar a forma com que o roteiro é tocado, mas ao mesmo tempo deixa aquela sensação de que algo inesperado pode acontecer a qualquer momento (e não preciso dizer que acontece, não é).

Afinal, qual o gênero de Pulp Fiction? Se você tentar parar para pensar nesta questão, verá que é muito difícil encontrar uma resposta. Se eu dissesse que é um filme de comédia, estaria mentindo sobre sua principal essência, que é o crime. Enquanto isto, se lhe classifico como um filme deste tipo, deixo de lado todo seu charme. Na minha visão, Pulp Fiction pode ser encaixado como um “neo-noir”, muito aos moldes de seu diretor. Sua narrativa, os diálogos precisos, a grande quantidade de comédia negra e o embalo de um típico thriller de crime criam um ambiente muito rico. Temos a história de dois assassinos de aluguel, Jules Winnfield (Samuel L. Jackson)  e Vincent Vega (John Travolta), que se envolvem direta e indiretamente com o pugilista  Coolidge (Bruce Willis) em um caso, com Marsellus Wallace (Ving Rhames) e sua esposa (Uma Thurman) em outro, até a presença de  Winston Wolf (Harvey Keitel). Certamente você conhece a história, mas vou aproveitar este texto para tratar sobre um caso que é pouco explorado: a morte de Marvin (Phil LaMarr) .

A pergunta que eu faço é: será que Vincent (John Travolta) atirou em Marvin (Phil LaMarr) por acidente? Não se engane: esta cena é fundamental na construção do longa, caso tentarmos analisa-lo de forma linear. Sem esta cena, Tarantino não teria feito seu cameo, Harvey Keitel não se tornaria no cleaner mais famoso da história do cinema e provavelmente o final de Jules e Vincent seria alterado. Caso você esteja perdido e não se lembre, por favor, assista ao vídeo no final da página.

Pois bem, na cena anterior ao “incidente”, Jules e Vincent escaparam por pouco de serem mortos após um homem (interpretado por Alexis Arquette) descarregar sua arma e não acertar sequer um tiro na dupla. Isto foi o bastante para Jules decidir se aposentar e não ser mais um hitman. Segundo Jules “o que aconteceu aqui foi um milagre, e eu quero que você fique ciente disto“. Jules estava certo de que uma intervenção divina ocorreu naquela sala. Deus não permitiu que ele e seu amigo fossem alvo daqueles tiros. Na cena seguinte (vídeo abaixo), Marvin está no banco de trás do carro da dupla. Podemos notar que Jules está visivelmente alterado.

Vincent tenta provar que incidentes acontecem, como no diálogo a seguir:

Você já viu aquele programa chamado Cops? Eu estava assistindo esses dias e vi um episódio em que o policial estava falando sobre um troca de tiros em um corredor com um ladrão, okay? E ele descarregou no cara, e nada aconteceu, ele não atingiu nada, okay? E só estava ele e esse cara. Quero dizer, é uma situação bizarra, mas acontece.

Porém, nada tira de Jules a ideia de que a mão de Deus estava envolvida. Quem já viu o filme mais de uma vez certamente ficou curioso ou foi pesquisar sobre a passagem Ezequiel 25:17, citada pelo personagem de Jackson antes de assassinar alguém. A grande (e louca) aproximação deste homem com Deus já foi análise de vários artigos em revistas de cinema. Jules responde: Olhe, se você quer bancar o cego vá andar com o pastor. Mas os meus olhos estão bem abertos. Esta é o ponto que envolve estas duas personalidades fortes. Cada um tem sua teoria sobre o que aconteceu. Nem Jules nem Vincent vão abrir mão de sequer um argumento. No decorrer da conversa, Vincent pergunta a Marvin sua opinião. Ah, e se Marvin tivesse uma opinião… Como as coisas seriam diferentes! Após o jovem não querer se posicionar, Vincent se vira com sua arma em punho e diz:

Mas você tem que ter uma opinião! Você quer me dizer que Deus desceu dos céus e parou (bang)“.

Pronto: Marvin está morto. O carro está coberto de sangue. O tiro foi acidental? Se você for procurar a versão “oficial” de Vincent, sim. Ele diz “eu não queria ter feito isto, foi um acidente“. Minha teoria é de que Vincent matou Marvin propositalmente para provar para Jules que é o homem que está no comando da situação, e não o homem. Quando o homem quer, ele dispara uma arma e mata alguém. O dito milagre de Jules foi, no máximo, uma grande jogada de sorte. O atirador que erro aqueles tiros era incompetente ou estava muito nervoso. Se você parar para analisar a cena, após Jules aparentar surpresa com o tiro, ele mesmo desconfia do que Vincent falou. O personagem de Travolta sugere que o motorista atingiu um quebra-molas ou algo do tipo. “Esse carro não passou sobre nenhuma merda de quebra-molas“.

Agora vamos tentar provar esta teoria. Vou enumerar os fatos que comprovam que Vincent acertou Marvin propositalmente.

1) Por que diabos Vincent se vira para Marvin com a arma em punho? Antes que me digam que isto poderia ser normal, na primeira cena do longa Vincent aparece com as mãos livres no carro. Ou seja, não seria um costume ou forma de proteção pessoal.

2) Vincent diz que a arma went off, ou seja, diz que ela disparou sozinha. Na verdade, você pode ver claramente seu dedo puxando o gatilho.

3) O que torna impossível um assassino profissional disparar uma .45 acidentalmente? (leve em conta que é necessária certa força para puxar o gatilho).

4) “Você quer me dizer que Deus desceu dos céus e parou a bala”. Para mim fica muito claro que neste caso Vincent quis comprovar para Jules que Deus nunca pode parar o homem. Por isso ele atira em Marvin logo após citar Deus.

Isto é o que podemos tirar do filme. Mas o que as notas de produção dizem para poder nos ajudar a solucionar o caso?

Após pesquisar muito sobre esta cena, encontrei algumas informações de ouro para solucionar o caso: no roteiro original, Vincent atinge Marvin por acidente em uma troca de tiros dentro da mesma casa onde os personagens de Travolta e Jackson foram alvo do louco que errou todos os tiros. Logo depois, dá um tiro de misericórdia no moço. Travolta não gostou do que leu e pediu para Tarantino trocar a cena para “não ser odiado pelo público”. No draft do roteiro, Vincent insiste, por três vezes que a arma disparou sozinha (no filme ele só diz isto uma vez). Ainda no esboço, Jules pergunta o motivo para atirar em Marvin, e Vincent fala: “eu não sei, não estava pensando neste sangue todo”.

Mais claro, impossível. Vincent matou Marvin de propósito!

20 anos depois, temos aqui uma referência e um símbolo da indústria independente. Um símbolo cult. Um dos filmes mais assistidos de todos os tempos. Não é qualquer um que faz mais de duzentos milhões de dólares com um longa de orçamento limitadíssimo.

Obra prima!

NOTA: 10/10

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