Getúlio – 2014

“Gosto mais de ser interpretado do que me explicar”. Esta frase de Getúlio Vargas nos ajuda a entender um pouco de toda a polêmica que envolve este grande personagem da história brasileira do século XX nunca foi uma unanimidade. É impossível analisar o filme de João Jardim sem discorrer breves palavras sobre o político gaúcho que ainda é alvo de várias publicações anuais: enquanto muitos cultuam o mito do “pai dos pobres”, outros ainda resistem em avaliar positivamente um homem que rasgou duas constituições nacionais e governou com poderes ditatoriais o Brasil por quinze anos.

O conceito e argumento da produção que traz Tony Ramos no papel principal foi muito bem elaborado: após o filme iniciar com Vargas discutindo sua trajetória política (que inclui uma avaliação crítica tanto de seu período como ditador quanto sua passagem como presidente pelo voto popular), passamos a acompanhar todo jogo político por trás da tentativa de assassinato de Carlos Lacerda (Alexandre Borges) em agosto de 1954.

O premiado diretor responsável por Janela da Alma (2001), Pro Dia Nascer Feliz (2006) e Lixo Extraordinário (2010) apostou neste recorte temporal por dois motivos: o primeiro diz respeito aos gastos exorbitantes de tentar lançar uma cinebiografia de toda a carreira Getúlio: infelizmente o cinema brasileiro ainda não tem condições de financiar uma produção deste calibre. Além disso, ao apostar em contar os últimos dias de Vargas, os produtores se aproximaram de uma proposta similar a Der Untergang de Oliver Hirschbiegel, que venceu todas as desconfianças para se tornar um dos melhores filmes produzidos na Europa na década passada.

Como historiador, fiz algumas ressalvas quanto ao desenvolvimento roteiro: por vezes achei que o diretor se preocupou demais em tornar o filme o mais didático possível e explicar detalhadamente quem era quem nas várias reuniões de gabinete do que entrar no conteúdo em si. O que me chamou a atenção foi que em boa parte do filme temos duas histórias riquíssimas para explorar (primeiro a tentativa de assassinato de Lacerda e depois as acusações de corrupção no governo Vargas), mas ficamos presos apenas a análise da camada mais superficial. Foi Vargas que ordenou a morte de Lacerda? Getúlio sabia de toda a sujeira que acontecia nos corredores de sua residência? Estas questões são tratadas de forma simples, acredito que para não dispersar a atenção do público. Se por um lado entendo que esta decisão tornou o filme muito acessível para uma possível inserção em Portugal e nos Estados Unidos, ao mesmo tempo fico imaginando o rumo que a história tomaria se outros elementos fossem tratados com mais propriedade – e me refiro especialmente a pressão que Vargas sofreu dos jornais da época. Diferentemente do longa citado de Hirschbiegel, onde os produtores fizeram questão de abrir ao público as referências bibliográficas e as fontes orais e documentais para construção do roteiro, neste caso apenas sabemos que George Moura foi o responsável pela escrita, o que não deixa de ser um ponto negativo neste tipo de película.

A fotografia de Walter Carvalho é bastante detalhista: como quase todas as cenas foram gravadas no Palácio do Catete, podemos observar os detalhes da arquitetura neoclássica do local e até mesmo todo o esplendor dos luxuosos lustres e cristaleiras do local. Nos momentos de tensão, a trilha sonora ajuda a criar um ambiente escuro que pode ser notado nos vários closes tomados de Tony Ramos. Suas expressões faciais servem como uma ponte entre o pesado clima que tomava contra do Brasil com sua crescente preocupação de ser deposto e preso pelo exército.

O elenco principal é bastante seguro. Drica Moraes faz muito bem o papel de Alzira e Michel Bercovitch impressiona como Tancredo Neves. Outro fato de chamou muita atenção: antes dos créditos de produção rolarem, as fotos dos atores são colocadas lado a lado com os homens a quem eles deram vida. A semelhança física da maioria do elenco impressiona, muito por conta do excepcional trabalho da equipe de maquiagem.

Uma película extraordinária, com produção de primeiro nível. Mostra todo potencial do cinema brasileiro e coloca João Jardim definitivamente no patamar mais alto em se tratando de realizadores nacionais.

NOTA: 8/10

IMDB

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