Los olvidados (Os Esquecidos) – 1950

Após completar L’âge d’or e se desligar de Salvador Dalí, Luis Buñuel deixou a Espanha rumo aos Estados Unidos em 1938. Apesar de ter um contrato com a Warner, o espanhol foi pouco utilizado nas terras do Tio Sam, muito pelo fato de se dedicar a projetos paralelos como a expansão e promoção do movimento surrealista. Em 1945 Bruñuel abandonou os EUA e se aproximou de Óscar Dancigers, um comunista banido de Hollywood no período do Macartismo que foi o responsável por financiar a chamada “fase mexicana” do realizador espanhol, iniciada com Gran Casino (Tampico, 1947), um ambicioso projeto que se mostrou um grande fracasso de arrecadação. No período de ouro do cinema mexicano, Óscar exigiu do espanhol um filme que pudesse lucrar na bilheteria, com a garantia de que ele daria carta branca para Buñuel produzir o longa que quisesse mais tarde.

Dito e feito: o espanhol finalizou a rodagem da comédia El Gran Calavera (estrelada pelo popular ator Fernando Soler em 1949) e correu para montar o set de Los olvidados (Os Esquecidos, no Brasil). Em primeira análise, posso garantir que o diretor teve inspiração no movimento neorrealista italiano (em especial no filme Sciuscià) para a construção do roteiro. Ainda assim, em algumas cenas fica claro que o surrealismo ainda estava em suas veias, com vários símbolos e representações do real e irreal.

Assim como em Sciuscià, o foco de Los olvidados é analisar uma amizade de dois jovens que não tiveram sorte na vida. “El Jaibo” (Roberto Coco) escapa da penitenciária onde estava preso e volta para acertar as contas com seu delator. Ele pede a ajuda do jovem Pedro, que aos poucos passa a ser corrompido pelo meio que vive. O clímax do filme divide-se entre um assassinato e o relacionamento de Pedro com um cego colocam a prova sua relação com El Jaibo. O departamento de censura do México não ficou nem um pouco satisfeito com o corte final do longa e exigiu que Bruñuel gravasse um final alternativo para rodar nos circuitos americanos e europeus. O gabinete do presidente Miguel Alemán Valdés queria passar a imagem de um país em pleno progresso, onde a pobreza e os delinquentes diminuíam a cada ano.

Até mesmo os críticos dos Estados Unidos ficaram surpresos com a miséria levada as telas pelo espanhol. O lendário Bosley Crowther, por exemplo, não recomendou o filme para os leitores do The New York Times pela falta de preocupação do diretor em oferecer uma solução aos problemas apresentados. Por mais que respeite a carreira de Crowther, discordo completamente de sua análise. E faço isto pois quando este senhor teve a chance de reavaliar o filme, na década de 1970, continuou com resistência a produção. Los olvidados não só é um dos melhores longas produzidos na América Latina como também é um dos maiores expoentes do cinema crítico desta região.

NOTA: 8/10

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