Wings (Asas) – 1927

No mesmo ano em que Sunrise ganhou o Oscar de melhor produção, Wings levou o prêmio de melhor filme. Por muito tempo se pensou que este filme de 1927 havia sido perdido. No entanto, uma cópia encontrada na Cinémathèque Française na década de 1980 trouxe grande alívio aos fãs de cinema.

Wings (Asas, no Brasil) foi sucesso de bilheteria e o responsável por uma das primeiras choradeiras generalizadas nas salas de cinema de que se tem registro. Ambientado na Primeira Guerra Mundial, o longa acompanha Jack Powell (Charles “Buddy” Rogers ) e David Armstrong (Richard Arlen), dois vizinhos que eram apaixonados pela mesma mulher (Jobyna Ralston). No entanto, Mary (Clara Bow) não perde as esperanças de se casar com Jack, apesar deste jamais se interessar pela moça.  Jack e David deixam as diferenças de lado quando são convocados para servir na força aérea americana. No clímax do filme (no momento da histórica Batalha de Saint-Mihiel) uma série de eventos coloca os dois protagonistas em uma delicada situação.

O filme foi pioneiro em vários quesitos. Foi o primeiro longa da história a mostrar um beijo entre dois homens. Pois é. Jack e David se beijam (foto). Ao contrário do que podem estar pensando, a cena não gerou confusão na  época, já que o beijo entre homens era comum entre os militares da Primeira Guerra Mundial. É possível ainda ver homens nus fazendo os exames para o ingresso no exército e Clara Bow pelada (este sim gerou certa controvérsia). Assim como Sunrise, Wings foi uma das primeiras superproduções do cinema dos Estados Unidos. Com gastos que superaram os dois milhões de dólares, a Paramount conseguiu auxílio do governo americano para custear a produção. Em troca, o roteiro foi “adaptado” conforme gosto do departamento de propaganda: os alemães eram os vilões cruéis e os americanos apenas entraram na guerra para trazer a paz de volta no mundo.

The Artist (2011) abordou de forma brilhante a transição do cinema mudo para os talkies. Os artistas que fizeram sucesso antes dos filmes falados enfrentaram enorme dificuldade para se encaixar no novo mercado. Uma das estrelas que mais sofreu foi justamente a protagonista de Wings, Clara Bow. Considerada a maior atriz de Hollywood até 1930 (para ter noção, em apenas um mês ela recebia mais de 40 mil cartas de fãs), Bow era certeza de retorno financeiro e tinha poder de veto nos filmes que atuava. Após ler o roteiro inicial de Wings, Clara reescreveu pelo menos duas cenas para garantir maior tempo de exposição na tela. No começo da década de 1930, após participar de alguns talkies, Bow abandonou de vez o cinema por não aguentar a pressão dos produtores em sincronizar a fala com a ação (sim, esta foi uma das maiores dificuldades iniciais). Buddy Rogers, o outro protagonista, até que chegou a participar de outras produções na década de 1930, mas não conseguiu se encaixar na nova ordem de Hollywood.

O filme traz um pequeno cameo de Gary Cooper (que foi responsável direto pelo boom de sua carreira). Aliás, se você der play no trailer abaixo, vai ver que o nome de Gary é o primeiro a ser citado depois de Clara Bow, dando a falsa impressão de que ele teve papel de destaque no longa (na verdade atuou apenas dois minutos). A produção envolveu mais de dois mil figurantes, a maioria soldados do exército americano estacionados no Texas. O diretor William A. Wellman (que foi um piloto na Primeira Guerra, diga-se de passagem) quase viu seu filme ser cancelado pela Paramount após um acidente que matou um dublê que realizava tomadas aéreas.

Apesar de suas limitações e de ser um dos mais claros exemplos de propaganda americana na década de 1920, Wings fez por merecer o prêmio maior da Academia.

NOTA: 7/10

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