The Hunt (A Caçada) – 2020

The Hunt (A Caçada, no Brasil) tem direção de Craig Sobel e é uma reimaginação de The Most Dangerous Game, conto originalmente publicado em 1924, e que rendeu uma adaptação clássica para o cinema produzida pela RKO, em 1932. Com distribuição da Universal e produção de Blumhouse – que ganha cada vez mais espaço no mercado, cabe ressaltar que a distribuidora soube aproveitar o clima de controvérsia em torno deste lançamento e está divulgando o projeto como imperdível, que está na boca do povo.

The Hunt estava marcado para estrear em setembro de 2019, mas acabou adiado pelos massacres de Dayton e El Paso – além de virar pauta para batalha a partir do momento em que Donald Trump usou o filme para atacar a elite de Hollywood. Em suma, o filme ganhou uma dimensão tão grande que é frustrante ver seu desenvolvimento e o comentário social raso que tenta articular durante sua exibição. Mas talvez essa tenha sido a proposta mesmo.

Na produção temos o desenrolar do tradicional jogo caçador (elite liberal) x caça (deploráveis). Estes conceitos são usados no léxico político estadunidense desde a eleição de 2016, e o filme basicamente abraça de maneira natural. Os caçadores são seguidores fiéis da rede NPR, por exemplo, e o grupo perseguido tem sua retórica toda montada em torno do Make America Great Again e de pautas recentes de Donald Trump.

Aos poucos, The Hunt se molda em torno destes termos isolados e de como cada lado começa a propagar conceitos e palavras soltas para sustentar suas visões de mundo. Parece que é a forma que Hollywood usa de mostrar que acompanha as teorias da conspiração e preocupações envolvidas nos dois lados (desde o reddit até o 4 chan).

Só que isso é frustrante: o filme parece que seleciona propositalmente o pior do que cada lado tem a oferecer, e fixa um complexo debate em torno de estereótipos. Sim, por alguns minutos até que a sátira é bem orquestrada. Mas você nota que eles usam sempre os mesmos recursos, sempre as mesmas atitudes. E quem é a vítima disso é o próprio filme, que acaba se perdendo completamente na sua narrativa.

Você nota que o direcionamento foi péssimo quando até os moderados são alvo dos ataques – como se o filme basicamente te obrigasse a escolher entre um dos lados, mesmo sem posicionar heróis ou antagonistas diretamente na história. Se você gosta ou acompanha discussão política em fóruns dos EUA com certeza vai notar que The Hunt faz tributo aos mais variados memes publicados nos últimos quatro anos. Acredito que, para quem vive no exterior, o foco do filme será bem mais problemático, dada essa proposta de debate com quem vive 24h por dia atacando ou defendendo seu ponto de vista.

Todos sabem que os EUA estão divididos. O que The Hunt faz é capitalizar em cima de alguns dos piores discursos dos últimos quatro anos e levar para as telas uma história preguiçosa, que se contenta em entregar um gorezinho básico dentro dessa conjuntura. Resumo da história: no meio de toda essa polêmica, o maior afetado é o próprio filme, que não consegue sustentar sua principal linha de marketing – “o longa mais polêmico de 2020”.

Crítica em vídeo:

NOTA 4

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