Green Book – 2018

Um filme de emoções e aprendizados. A amizade entre Frank “Tony Lip” Vallelonga e Don Shirley pode ser analisada de diversas formas. Na proposta do diretor Peter Farrelly – a tensão da década de 1960 nos Estados Unidos é fundamental para estruturar o longa e lembrar do racismo e, de modo geral, do ódio e preconceito que marcavam profundamente o sul do país. Não é a toa que Green Book (Green Book – O Guia, no Brasil) é um dos longas mais importantes desta temporada: com uma condução leve, mas afiada, é possível levantar uma série de questionamentos que poderiam ser tranquilamente realizados no mundo contemporâneo.

Com o pano de fundo da época Jim Crow – que escancarava a segregação racial – Tony Lip (Viggo Mortensen) torna-se motorista do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), pianista de reconhecida inteligência e talento nos Estados Unidos, que faz um tour pelos estados do sul. Apesar da ótima educação e do alto nível intelectual, Shirley enfrentava dificuldades básicas – desde ir ao banheiro em uma residência da elite sulista até comer em um restaurante de luxo por um único motivo: a cor de sua pele. Tony Lip, que inicialmente aceita o serviço apenas pelo dinheiro, torna-se amigo e confidente do doutor, gerando uma parceria e amizade que seria duradoura.

Uma decisão importante mudou completamente a estruturação do filme: existia a possibilidade de criar um drama clássico a partir do material base ou mesclar a complexidade cultural e social da década de 1960 com um refinado traço de humor – que foi o que ocorreu aqui. Entre os desacatos sofridos pelo doutor, encanta a forma como o roteiro propõe uma máxima de positividade que contagia o ambiente e rende ótimas piadas.

É verdade que os dois protagonistas ajudam: Mortensen – em um dos melhores papeis de sua carreira – e Ali – mais uma vez magnífico – colocam na tela uma amizade dinâmica e que consegue explorar a diversidade a partir de bons diálogos que têm como chave para o sucesso justamente a simplificação e o bom humor, como na primeira vez em que o doutor comeu um pedaço de frango do KFC após um convite de Lip.

Pelo lado do contexto histórico, por três vezes Peter Farrelly posiciona o personagem de Ali perante outros negros – o que causa uma sensação de estranhamento que deveria ser triste e comum no período. O ótimo trabalho de montagem consegue captar o olhar de Ali e, através do reflexo de seus olhos, mostrar que, ainda que difícil, era possível fugir do cenário de opressão.

Green Book faz uma campanha forte para o Oscar de melhor ator para Mortensen e de melhor coadjuvante para Ali – este último com grandes chances, apesar de considerar que os dois são protagonistas. Um dos grandes longas deste ano!

NOTA: 8/10

IMDb

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