Roman J. Israel, Esq. – 2017

Gosto sempre de repetir na última leva de filmes da temporada que o mercado impõe algumas injustiças. Trabalho de marketing, datas de lançamento e visibilidade do público acabam deixando de lado ótimos longas. 2017, na minha visão, foi um ano com grandes lançamentos mas com uma janela de premiações extremamente feroz. Mas deslocar um filme da janela de final de ano nem sempre é uma boa ideia. A Ghost Story tentou a sorte no verão, mas não obteve sucesso. A A24 tentou o fator surpresa com The Florida Project, lançado em outubro – também sem sucesso. Mas o grande injustiçado da temporada 2017 – o que chamo de ‘prêmio Inherent Vice’ – foi Roman J. Israel, Esq, lançado em novembro e que não teve a chance de se provar por conta de um lançamento polêmico no Festival de Toronto.

Roman J. Israel (Denzel Washington) é um advogado que trabalha em um pequeno escritório. Dono de uma memória privilegiada e convicto de suas posições, também é um ferrenho defensor dos direitos civis. Após seu parceiro sofrer um derrame, seus herdeiros decidem pelo fechamento do escritório – deixando Roman sem emprego. Pela primeira vez em décadas Roman precisa buscar um novo trabalho – e nessa busca acaba conhecendo uma ativista (Carmen Ejogo) que se fica encantada com sua determinação. Roman aceita o convite para trabalhar com George Pierce (Colin Farrell), dono de um prestigiado escritório de Los Angeles, justamente por conta da pressão para ter alguma renda, mas após um de seus clientes ser assassinado ele passa a questionar seu instinto e suas crenças.

Muitos colegas dos Estados Unidos criticaram duramente o filme em novembro tendo em conta o que assistiram em Toronto, em setembro. No entanto, deixo claro que o diretor Dan Gilroy trabalhou com a Sony para remontar seu filme em dois meses, acatando parte das críticas. Doze minutos de cenas foram cortados, um subplot foi removido e uma reconstrução do personagem de Farrell foi encaminhada para levar ao público uma história mais coerente.

Gilroy teve uma estreia de luxo com Nightcrawler, e mais uma vez aposta no drama existencial para desenvolver um protagonista que entra em guerra consigo mesmo. Denzel – um dos melhores atores de sua geração – tem um estilo perfeito e que fecha completamente com a visão idealista de Roman. É curioso ver como o diretor consegue fixar seu estilo com apenas dois filmes: nos dois terços iniciais temos um estudo refinado sobre o personagem principal que leva o público a questionar as ações e o cotidiano de Roman – que deixou de lado a chance de ter um relacionamento ou uma família para lutar pelo que acreditava ser justo e correto. O ato final envolve fatores expostos nas primeiras tomadas e leva o espectador a realizar seu próprio julgamento moral através dos twists propostos.

É difícil lançar um filme em um festival e voltar para a sala de edição. Alguns colegas não aceitam isto de forma alguma por acreditar que no futuro os festivais acabem virando uma espécie de laboratório de testes de longas. Não se deixe enganar pelas notas da internet: “a versão final” de Roman J. Israel, Esq é extremamente sólida, e Denzel entrega uma das grandes atuações de sua carreira, merecidamente nomeada ao Oscar.

NOTA: 8/10

IMDb

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