Victoria & Abdul (O Confidente da Rainha) – 2017

É difícil desvincular a história apresentada pelo diretor Stephen Frears em Victoria & Abdul (Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha, no Brasil) do que realmente está registrado nos ótimos trabalhos publicados durante os últimos quinze anos sobre a curiosa amizade da rainha do Reino Unido com Abdul Karim, seu criado indiano. Acho válido e compreensível aliviar o peso da história real de determinadas passagens – afinal, o filme faz o alerta de que “quase” tudo é baseado em fatos reais. No entanto, ao lidar com uma personagem de grande peso na história como foi Victoria, a simplificação e a adoção de pautas políticas contemporâneas em um filme de época, além de abusar do anacronismo também gera questionáveis decisões de roteiro.

Judi Dench mais uma vez interpreta Victoria. Neste filme, o interesse é discutir seu relacionamento com Abdul (Ali Fazal) desde a primeira troca de olhares até os dias finais da monarca.

O desenrolar do filme, portanto, tem o foco na troca de diálogos entre os dois. O que gera espanto e estranheza, no entanto, é a decisão de Fears romantizar ao extremo a história real para criar duas figuras completamente diferentes das reais e afastadas do contexto do final do século XIX.

A mensagem do diretor, olhando para os dias atuais, é da tolerância religiosa e cultural. Nada contra, acredito, aliás, que o cinema realmente pode ser utilizado para este tipo de discussão, mas de forma séria. Victoria é apontada como uma Rainha “boazinha” que praticamente abraça sozinha Abdul, envolto ao contexto racista dos demais membros do Palácio. Ora, durante o período do reinado de Victoria, o Raj britânico foi o símbolo da opressão no século XIX. Posicionar Victoria como um intermédio para uma reflexão sobre a Islamofobia é um dos maiores absurdos que presenciei em um filme.

Quando faço este tipo de crítica, muitos leitores escrevem rebatendo que o diretor tem plena liberdade para levar as telas o personagem que bem entender. Não discuto isto, mas sim a honestidade intelectual, tendo em vista que o cinema, como meio de comunicação de massa, tem muito mais apelo do que um livro sobre o Reinado de Victoria. É através deste tipo de filme que cria-se uma noção errônea da história real, gerando um desserviço que dificilmente é corrigido, já que esta impressão de Victoria como uma velinha do bem e contra o racismo marca o público geral. Qual será o próximo passo? Discutir a “bondade” de Stalin com grupo de amigos?

Não entrarei em discussão nem sobre Abdul, conhecido por bajular o poder. Sim, o filme tem uma excelente trabalho de maquiagem, cenários e vestimentas – um dos destaques da temporada, inclusive. Mas no fundo, a análise geral do roteiro de Fears mostra um filme vazio, que se propõe a levar uma mensagem forte mas não explora a diversidade dentro do próprio longa, com Abdul completamente escanteado como um coadjuvante que entra em cena para suprir as vontades e curiosidades da Rainha.

NOTA: 5/10

IMDb

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