Hidden Figures (Estrelas Além do Tempo) – 2016

Um filme que trata sobre grandes pessoas não é sinônimo de um grande filme. Hidden Figures (Estrelas Além do Tempo, no Brasil) tem um elenco super-estrelado e entrega ao público a mensagem proposta pelo diretor Theodore Melfi, mostrando uma história pouco discutida sobre a corrida espacial. No entanto, a fórmula proposta para emocionar o espectador é desleal com a história real, brilhantemente estudada por Margot Lee Shetterly no livro que dá título a esta produção. Com alguns anacronismos, Melfi preferiu hollywoodizar ao máximo seu longa para estabelecer heroínas, que constantemente lutam pela aprovação e validação em meio a seus pares em uma luta contra vilões – desnecessários, por sinal, tendo em vista a linda história da equipe das matemáticas negras.

A cena inicial já mostra o tom do filme: Katherine Johnson (Taraji P. Henson) e suas colegas Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) são abordadas por um policial, que se surpreende quando ouve que elas trabalham para a NASA. O clímax da narrativa está no papel desempenhado pelo grupo durante a missão Mercury-Atlas 6, que fez de John Glenn (Glenn Powell) o americano na órbita da terra. As matemáticas buscam provar seu valor para o diretor Al Harrison (Kevin Costner) ao mesmo tempo que enfrentam a resistência de sua supervisora (Kirsten Dunst) por causa da cor de suas peles.

Faço aqui a mesma crítica que fiz ao filme The Imitation Game dois anos atrás. O cinema, além de uma forma de entretenimento, também é utilizado para propagar conhecimento. Registro apenas um exemplo de como a produção busca estruturação a partir de fatos completamente distorcidos: é interessante notar o uso da expressão ‘Colored Computers’ ao longo do filme. Durante a década de 1940, as matemáticas eram apelidadas de computadores, e a palavra ‘Colored’ foi usada justamente para criar a diferenciação dos brancos com os negros. No entanto, conforme a própria Shetterly menciona em seu ótimo livro, o ambiente mudou radicalmente após a Segunda Guerra Mundial, e a NASA – fundada em 1958 – tinha como grande diferencial a integração proposta em todas suas unidades. Johnson lembra que apesar de ter noção do clima de segregação, todas as equipes tinham objetivos em comum. Como o filme trata de um período reconhecido na história americana, Melfi não pensou duas vezes ao trabalhar histórias inverídicas (como a do banheiro separado e das matemáticas negras serem confundidas com empregadas).

Reconheço, no entanto, que o filme fez tal adaptação para ser um dos melhores registros disponíveis sobre o combate ao racismo institucionalizado. É nessa fina linha entre a realidade e Hollywood que torna-se vital a leitura complementar do maior número de material disponível sobre o tema. Os feitos de Katherine Johnson e cia são tão relevantes que não precisariam em nenhum momento de personagens superficiais para conseguir provar sua capacidade em um longa metragem. Lamento por essa decisão.

NOTA: 6/10

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