Pequeno Segredo – 2016

A tomada inicial de Pequeno Segredo é ambiciosa: ao inserir os créditos de produção com vasto oceano ao fundo, David Schurmann tenta marcar território. Uma hora mais tarde, a cena deixa saudades: o filme toma um rumo extremamente entediante, com um abuso do melodrama evidenciado em uma porção de cenas dispensáveis.

Em termos gerais, a proposta é analisar diferentes formas de amor, expressadas em duas narrativas entrelaçadas: Vilfredo Schurmann (Marcello Antony) e sua mulher, Heloísa (Júlia Lemmertz) mostram o mundo para a jovem Kat  (Mariana Goulart), cheia de dúvidas. Kat é soropositiva, e o vírus acabou com a vida de seu pai, o neozelandês Robert (Erroll Shand), e de sua mãe,  a brasileira Jeanne (Maria Flor).

Fica claro que David tenta transmitir a história da melhor maneira possível, dentro de suas imensas limitações. Por mais que eu me afaste da experiência de Desaparecidos, os mesmos erros de continuidade e de narrativa se mostram presentes, mas em outro gênero. Como um filme de recordação, cumpre seu papel. Como drama, falha miseravelmente. Uma série de laços simbólicos são efetuados de maneira infantil. Como exemplo, uma personagem do filme ganha um colar feito de ossos de baleia. Mais adianta, uma baleia encalhada faz com que a mesma personagem reflita sua vida, meses depois. Esse sentimentalismo barato ganha cada vez mais força, até a conclusão. A mensagem do HIV, que tentou ser transmitida antes dos créditos finais em algumas linhas de texto, poderia ser mesclada na narrativa de forma bem mais eficaz. Júlia Lemmertz é o único destaque positivo – é notório que ela abraçou a história e se dedicou ao máximo para passar credibilidade.

Feitas as considerações sobre a produção, gostaria de discutir alguns pontos da indicação brasileira ao Oscar de melhor longa estrangeiro (já que é em cima disso que o filme deve promover seu marketing assim que lançado nacionalmente): chega a ser ridícula a afirmação que Pequeno Segredo tem ‘a cara do Oscar’. Ou demonstra um desconhecimento profundo da categoria, ou a desculpa dada pela Secretaria do Audiovisual foi criada de última hora, tentando jogar este argumento na cara dura para tentar convencer o país. Sim, a comparação com Aquarius deve ser feita de forma direta. Afinal, o Oscar de melhor filme estrangeiro teoricamente deveria ser disputado pelo melhor filme de cada país. É triste notar, no entanto, que parte da população quis trazer a tensão política do país para os filmes – mantendo a profunda divisão ideológica dos tempos atuais. Ao contrário de Aquarius, onde Pedro Sotero e Fabricio Tadeu deram uma aula de cinema na questão da fotografia,  deve-se ressaltar que em Pequeno Segredo não é coerente, e o padrão afirmado nos minutos inicias muda repentinamente – talvez para explorar o ‘segredo’.

Outro fator bizarro é considerar que o filme tem um tom hollywoodiano. Não! A forma como a mãe de Robert (Fionulla Flanagan) é apresentada como antagonista para depois se redimir, lembra muito os dramas da indústria indiana – bollywood – que faz o máximo para enviar o espectador pra casa com lágrimas nos olhos (no caso deste gênero), desconsiderando qualquer alternativa séria para a construção decente de um personagem na tela. Ainda assim, Pequeno Segredo pode agradar uma parcela do público que gosta de melodramas com fundo na superação de graves problemas. Eu queria muito poder dizer que esse filme tem todas as chances de disputar o Oscar, que a produção é ótima e que a direção é segura. Mas não é o caso. Pequeno Segredo entrará para a história do cinema brasileiro como a pior indicação ao Oscar feita pelo país. Além disso, chamo atenção para o sério risco de desclassificação por conta do uso excessivo da língua inglesa. Seria a coroação da incompetência da ‘comissão de especialistas’ do Ministério da Cultura.

NOTA: 4/10

IMDb

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