Zero Days – 2016

Alex Gibney é um dos mais destacados documentaristas deste novo milênio. Após vencer o Oscar com Taxi to the Dark Side, a qualidade de todas suas produções aumentaram ainda mais – e seus focos continuaram em questões polêmicas, seja com Lance Armstrong ou com a Cientologia. Em Zero Days, sua recente produção, o objetivo é discutir sobre o Stuxnet, worm de computador criado pela gestão Obama junto da inteligência de Israel para sabotar o programa nuclear do Irã.

O Stuxnet foi alvo de investigações de redes de televisão e de jornais, como o Washington Post e The New York Times. No entanto, a operação para abafar o caso foi efetivamente levada adiante pelo governo estadunidense. Como Gibney mostra na introdução – ninguém do governo ousa em falar publicamente sobre o assunto, e as informações são desencontradas. É justamente esse silêncio que busca ser quebrado.

Um dos especialistas entrevistados classifica os ataques digitais em três categorias: a primeira – mais popular – é voltada para crimes digitais, como falsificação de cartões de crédito e fraudes bancárias. A segunda é o hacktivismo – utilizada geralmente por um grupo para protestar contra uma determinada empresa ou país. E a terceira, menos conhecida e divulgada, é a guerra entre países (no caso aqui destacado, a ofensiva dos EUA e de Israel ao Irã).

Em 2010, um worm (código malicioso) infiltrou a usina nuclear de Natanz, no Irã, atingindo a rotação dos reatores – o que causaria sérios problemas no funcionamento da unidade. Apesar do presidente Mahmoud Ahmadinejad inicialmente acreditar em um ato isolado de vandalismo, logo ficou claro que o ataque era sofisticado, com planejamento de alguns dos mais brilhantes hackers do mundo. A partir da entrevista de dois empregados da Symantec que analisaram a ameaça (Eric Chien e Liam O’Murchu) – passamos a entender o tamanho do trabalho empregado em torno desse worm. Oficiais do governo e outros analistas de segurança digital se encarregam de contar passo a passo da situação.

Graças aos arquivos lançados por Edward Snowden e a um grupo de oficiais da NSA e da CIA que aceitaram colaborar para o projeto, o diretor constrói toda sua narrativa em bases sólidas, de muita credibilidade. O público não precisa conhecer termos complicados da computação ou compreender termos diplomáticos para ter noção do que será apresentado: o diretor faz um ótimo papel de mediação, com excelentes gráficos e recursos visuais essenciais para uma boa compreensão, por exemplo, do funcionamento dos reatores nucleares e da eficácia do Stuxnet.

Mostrando-se atento aos eventos recentes, Gibney não limita sua análise apenas nos episódios da guerra digital – tratando de forma aberta e serena sobre as negociações de paz entre Estados Unidos e Irã ocorridas no ano passado – com um acordo sobre limitações nucleares. Zero Days é um documentário completo. Além de dar um ótimo contexto sobre pragas de computador, sabotagens e inteligência virtual, também abre uma boa discussão sobre os limites dos ataques na era digital, assunto que dificilmente é comentado pelo governos. Mais um excelente projeto comandado pelo ótimo Alex Gibney, que deve ser reconhecido com indicações para vários prêmios, além de figurar na lista inicial de favoritos ao Oscar de melhor documentário.

NOTA: 8/10

IMDb

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