Mãe Só Há Uma – 2016

O conceito de cinema menor, aos poucos, ganha espaço nas discussões sobre cinema. Esse tipo de produção diferencia-se por completo dos tradicionais investimentos de grandes estúdios por dois motivos: 1) dá voz aos oprimidos; 2) direciona sua narrativa para questões que busquem remover o espectador da zona de conforto. Mãe Só Há Uma, novo filme de Anna Muylaert, é um dos melhores exemplos para ilustrar o cinema menor em seu mais amplo potencial.

Com base no caso Pedrinho – que tomou atenção da mídia nacional – Muylaert apresenta Pierre (Naomi Nero), um estudante que passa por uma fase de descoberta de sua própria identidade, onde sexo e drogas são apenas uma das várias ferramentas para interação social – seja com mulheres ou com outros homens. Certo dia, sua mãe, Aracy (Dani Nefusi), é acusada (e posteriormente presa) pela polícia pelo fato de ter orquestrado seu sequestro na maternidade. Se não bastasse o choque – que toma uma dimensão ainda maior com a notícia de que sua irmã também foi roubada – seus pais biológicos, Matheus (Matheus Nachtergaele) e Glória (Nefusi), buscam por um reencontro – despejando anos de saudades em torno do nome Felipe, que representaria um menino dos sonhos, sem reconhecer as particularidades do rapaz.

Após o estrondoso sucesso com Que Horas Ela Volta?, certamente a assinatura da diretora despertará um interesse muito grande no público brasileiro. Ainda assim, acredito que a melhor apreciação de Mãe Só Há Uma ocorre justamente ao tentar deixar de lado as naturais tentativas de comparação entre os longas para focar apenas na história apresentada.

Dois arcos narrativos são construídos em conjunto – e ambos têm força para moldar suas próprias conclusões (ou dúvidas). Geralmente, filmes que tratam sobre reencontro dentro deste contexto têm um foco muito definido no drama (como ocorreu com o cinema argentino pós-ditadura) – ou no melodrama (cada vez mais popular nos Estados Unidos). Mãe Só Há Uma deixa para trás essas etiquetas ao ficar de pé por sua própria força, através de uma ampla análise de identidade que envolve a própria descoberta de Pierre (a boa atuação de Naomi Nero e a ótima química entre o elenco desempenham papel fundamental para passar credibilidade).

Mesmo com um orçamento bem mais limitado do que o sucesso do último ano, o filme não busca enganar o espectador e apresentar uma sociedade enfeitada. A realidade das ruas e a dificuldade dos vários estereótipos empregados por uma sociedade conservadora – apegada em tradições e modos de comportamento ultrapassados – são apresentadas de maneira bem mais ousada do que em Que Horas ela Volta? – tornando a narrativa bem mais autoral.

Mãe Só Há Uma é um filme maduro e extraordinário, que sabe aproveitar seu tempo de exibição para transmitir ao espectador um convite a uma grande discussão. Anna Muylaert consolida-se como a principal realizadora do cinema nacional, com grandes roteiros transformados em excelentes filmes graças a uma fotografia segura e também pelos diálogos primorosos, que são a chave para uma continuidade que envole seu público.

NOTA: 8/10

IMDb

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