Batman: The Killing Joke (A Piada Mortal) – 2016

Nunca fui um leitor assíduo de histórias em quadrinhos. Reconheço, no entanto, que Batman: The Killing Joke (A Piada Mortal, no Brasil) é uma das melhores publicações de super-heróis de todos os tempos, além de ser minha favorita. O material original escrito por Alan Moore (com ilustrações de Brian Bolland) é idolatrado pelos fãs de Batman, já que cada página oferece várias possibilidades para interpretar as atitudes e ações tomadas pelo Homem-Morcego. Obviamente, o HQ – por si só – não teria forçar para sustentar uma animação de mais de uma hora de duração. Por conta disso, esperei ansiosamente pela animação dirigida por Sam Liu, um dos nomes mais respeitados em seu meio – que trabalhou com uma equipe para levar às telas o mesmo impacto causado pela trama publicada em 1988 (com uma edição especial lançada recentemente, indispensável). Para uma análise completa, faço um aviso de spoilers ao leitor.

A trama envolve elementos que resgatam parte da essência The Man Behind the Red Hood! – uma das HQ’s mais populares, ponte para a construção do Batman moderno. A abertura ocorre com Barbara Gordon, que tem sua história ampliada para entender suas motivações pessoais. Combatendo o crime em Gothan, seu papel toma rumos secundários, na medida em que o próprio Batman busca retirar ela de ação em meio a uma perseguição que envolve um mafioso que busca controle das operações da cidade. O subsequente relacionamento amoroso entre os dois encerra a primeira etapa da animação – que passa a focar no reino de medo de Joker/Coringa, que coloca a família do comissário Gordon como alvo para demonstrar que todas as pessoas que passam por situações extremas acabam tendo grandes mudanças de comportamento.

Parte do destaque da animação The Killing Joke está no rating R nos Estados Unidos, deixando claro que a abordagem conta com temas maduros. Ainda assim, a cena de sexo entre Batman e Batgirl, além de outras referências sexuais, são repassadas de forma bastante contida – e o excesso ocorre em cenas violentas que abusam do sangue.

A animação tem pontos muito fortes: lembra o estilo do Batman dos anos 90, conta com dois dubladores de altíssimo nível e constrói seus personagens de forma bastante sólida. Batman parece ser mais humano, sentindo dor, sangrando e tomando decisões com base nas suas emoções, que, quando unidos aos ótimos flashbacks da vida de Coringa, dão ao espectador ferramentas para uma análise comparada entre ambos.

O leitor que conhece a história original provavelmente tem noção da grande discussão em torno da última página elaborada por Moore (que envolveu até mesmo disputas acadêmicas). Antes de abordar como ela é repassada no filme, faço uma breve recapitulação das duas teorias:

  1. A risada compartilhada entre Batman e Coringa mostra que ambos são frutos de ‘um dia trágico’. São personagens espelhados, sendo que cada um optou por uma forma de lidar com seu luto pessoal. Apesar das longas disputas, ambos notam que são dependentes um do outro – e conseguem um tempo para dividir uma risada.
  2. Batman, após rir com Coringa, quebra seu pescoço – o que explicaria o silêncio abrupto das duas últimas tirinhas. Um ato de vingança, tendo em vista que o próprio Batman havia anunciado que certo dia algum deles iria acabar matando seu oponente.

Essas duas teorias abrem espaço para várias interpretações. O interessante, no entanto, é notar que o diretor quis entrar na controvérsia, com uma cena final de bastante impacto. Após a piada contada pelo Coringa, ambos riem. Segundos depois, com o foco voltado para o chão, apenas Batman continua com as gargalhadas – o que daria suporte para a segunda teoria destacada anteriormente. Sem dúvida alguma isso será fruto de controvérsias, já que Liu permitiu fazer uma emenda no roteiro original, que não sugere em nenhum momento a morte do Coringa. Outro provável alvo das críticas dos fãs mais conservadores (no sentido de seguir à risca a HQ), está na forma como a animação trabalha com o aspecto emocional de Batman, que volta para perseguir Coringa de forma irreconhecível, muito mais frio do que em seu relacionamento com Batgirl – decisão bastante estranha, já que a paralisia da moça graças a um tiro de Coringa tem grande ênfase no original.

Dentro de seu contexto de produção, Batman: The Killing Joke é uma excelente animação, que deve quebrar vários recordes devido ao enorme interesse do público na sessão aberta que ocorrerá mundialmente no dia 25/07, além de seu lançamento em Blu-Ray. Provoca e faz seu espectador ter vontade de descobrir (ou redescobrir) a histórica HQ de Alan Moore. Excelente trabalho da DC/Warner!

NOTA:8/10

IMDb

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