Section spéciale (Sessão Especial de Justiça) – 1975

Ao contrário dos primeiros filmes da carreira de Costa-Gavras, Section spéciale (Sessão Especial de Justiça, no Brasil) não teve boa bilheteria e gerou certa polêmica dentro da França. O tema – colaboracionismo do regime de Vichy na Segunda Guerra Mundial – entrou na pauta dos acadêmicos na década de 1960 e logo foi repassado para o cinema. Mantendo a mesma posição crítica de clássicos como Z, o diretor grego levou às telas uma dura realidade que foi responsável pela morte de vários inocentes.

Até a década de 1960, a escola francesa dava atenção aos atos de resistência. Filmes como L’armée des ombres (O exército das sombras) ganharam repercussão internacional e colecionaram prêmios em festivais. Este era o lado guerreiro, da espada, defensor dos ideais do General Charles de Gaulle, dos quais o país tanto se orgulhava. O outro lado – sombrio, defensivo – escondia-se no prestígio que restava da figura de Philippe Pétain, herói de Primeira Guerra Mundial e líder do governo colaboracionista. Não era fácil mostrar que o mesmo país que organizou um levante contra as forças de ocupações nazistas tinham também auxiliado na execução de conterrâneos. Quando Marcel Ophüls apresentou o impactante documentário Le chagrin et la pitié (A Dor e a Piedade), em 1969, percebeu-se que havia muito campo para a abertura de uma discussão que não queria ser levada adiante pelos próprios franceses.

Um crime ocorre em uma estação de metro: um oficial alemão é assassinado por membros da resistência, o que causa uma dura reação por parte das autoridades nazistas, que exigem a punição imediata dos envolvidos. Sem ter qualquer suspeito, a justiça francesa decide baixar uma lei retroativa que abre a possibilidade para a aplicação da pena de morte para todos aqueles que forem considerados terroristas pela Sessão Especial de Justiça, um tribunal criado para julgamentos sumários.

Gavras deixa claro o descontentamento dos juristas, que consideram – obviamente – um absurdo a ideia de retroatividade, deixando absolutamente clara a pressão alemã. No entanto, isto não foi o suficiente para evitar a criação do tribunal, já que alguns colaboracionistas abraçaram essa causa. Para dar uma resposta aos nazistas, o Ministro do Interior decide pela condenação de seis presos políticos – entre comunistas e judeus.

A tão aclamada resistência não tem espaço em Section spéciale – ficando para seus membros apenas o gosto da injustiça. A ideia é trabalhar o rastro de sangue criado por assinaturas de Ministros e colocado em prática pelos magistrados. O longa não contextualiza o panorama político, o que torna necessária uma leitura prévia sobre a divisão da França após a derrota para o exército alemão, no mínimo. A produção tem participação vital de Michael Lonsdale, que atua no papel do Ministro que tem a missão de convencer os juizes a aplicar as penas de morte o quanto antes. Section spéciale apresenta uma ótima discussão ética sobre o peso da justiça assinar ordens sumárias de execução, deixando claro que, em tempos de guerra, o consequencialismo impera. Um clássico esquecido e abandonado.

NOTA: 7/10

IMDb

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