Race (Raça) – 2016

O ministro da propaganda da Alemanha Nazista – Joseph Goebbels – é conhecido por popularizar a teoria da ‘grande mentira’, que surgiu dos escritos de Hitler em Minha Luta. Para ele, os ingleses criavam propositalmente mentiras grandiosas e vendiam elas como se fossem verdades. Obviamente tais citações hoje tem um cunho negativo, dada a dimensão histórica negativa dos dois homens citados acima. O mais triste, no entanto, é ver que Race (no Brasil com a péssima opção de traduzir o título literalmente para Raça) usa dos mesmos princípios – em suas determinadas proporções – ao levar ao público uma história totalmente descomprometida, falsa e que rebaixa os grandes feitos de Jesse Owens em um melodrama azedo.

O filme conta a trajetória de Owens (Stephan James) – que superou o racismo para se tornar quatro vezes campeão olímpico em Berlim. O filme foca nos treinos de Owens com seu técnico (Jason Sudeikis) para chegar em Berlim e vencer as principais provas do atletismo – mas várias são as aberturas criadas para definir histórias paralelas. O racismo na década de 1930, as políticas da Alemanha Nazista, a ameaça de boicote aos Jogos Olímpicos, sua vida pessoal e até mesmo o envolvimento de Leni Riefenstahl (Carice van Houten), que gravava o lendário documentário Olympia – são discutidos, sem profundidade.

Como os leitores sabem, minha formação acadêmica na área de História faz com que eu dê um valor ainda maior para as adaptações. É óbvio que o cinema tem todo o direito de usufruir de licenças criativas, mas existe uma fina linha entre a verdade e a mentira que deve ser bem explícita. Os produtores de Race, por exemplo, optaram pegar o atalho ao tornar Hitler no grande vilão da História, deixando o filme totalmente anacrônico. Digo isso, pois logo após as Olimpíadas o próprio Jesse Owens citou “Hitler não me esnobou – quem me esnobou foi Franklin Delano Roosevelt”. A cena em que Hitler desaparece após a premiação é interpretada como uma recusa, e a reação de Owens é de frustração. O problema é que isso está longe de ser real – e na última década os últimos sobreviventes americanos dos jogos de 1936 trouxeram novas informações sobre o caso – como o cumprimento dos dois e até mesmo uma fotografia que Owens carregava em sua carteira. Tudo isso é desprezado. Ao invés de uma visão crítica, temos um recheado de informações sem sentido, que apenas buscam o melodrama (também vistas nas cenas de amizade entre Owens e o alemão Luz Long, que no filme é apresentado como uma espécie de ‘o bom nazista’, que seria punido por Hitler por conta do abraço que deu em Owens após a vitória na prova de salto, o que também é outro absurdo histórico).

Tanto os Estados Unidos quanto a cidade de Berlim da década de 1930 são apresentadas no filme de forma seca, sem vida. Nada mais do que um punhado de atores atuando sem qualquer liberdade, seguindo a risca a proposta do diretor Stephen Hopkins de entregar ao público uma história de superação ‘pronta’, sem espaço para diálogo. O protagonista Stephan James, no entanto, é competente o suficiente e não tem culpa nenhuma pelo fracasso estrondoso do roteiro. Sua entrega ao personagem é nítida, mesmo com as inconsistentes aparições de William Hurt e Jeremy Irons, perdidos em complexos personagens que não tiveram o devido cuidado.

Race tinha tudo para ser uma grande produção que comemoraria a vida de um dos maiores atletas de todos os tempos. Mas as grotescas falhas técnicas e a opção por um roteiro político tiram todo brilho da iniciativa, infelizmente.

*Race está disponível no Amazon Video

NOTA: 3/10

IMDb

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