Pasolini – 2014

Abel Ferrara concordou com a produção de um filme sobre os dias finais de Pier Paolo Pasolini após receber a garantia dos produtores de que ele teria liberdade total para caracterizar o lendário realizador italiano da forma que ele bem entendesse. Lançado na ocasião dos quarenta anos do assassinato de Pasolini, o longa de Ferrara adota um padrão de fotografia escura muito interessante para propor refletir sobre polêmica personalidade de seu objeto de análise, mas peca vergonhosamente ao querer entregar ao público uma visão condensada do legado do diretor e não chega nem perto de passar um mínimo de fidelidade histórica sobre a brutal morte de PPP.

O grande problema de misturar ficção em um filme que leva a proposta de investigação de alguma pessoa é que o público dificilmente conseguirá diferenciar o que parte e o que não parte da cabeça do diretor. Neste caso, Ferrara opta por uma simplificação tremenda de um caso que até hoje é um mistério na Europa. Em novembro de 1975, após lançar o polêmico Salò o le 120 giornate di Sodoma, Pasolini (interpretado por Willem Dafoe, velho amigo de Ferrara) convidou um jovem italiano para comer espaguete em um famoso restaurante de Roma. Horas depois, seu corpo foi encontrado completamente mutilado.

Com menos de noventa minutos, Dafoe não consegue se soltar diante das câmeras. Ferrara capta os trejeitos do diretor – como o andar desequilibrado – para passar uma espécie de segurança, como quem diz que sabe de quem está tratando. Infelizmente a discussão geral é vaga, e não temos uma visão do lado de filósofo, de jornalista ou mesmo de cineasta (!) de Pasolini. O filme ainda apresenta graves problemas de construção de diálogos. Isto também ocorre pelo fato de Dafoe ser o protagonista – o que levou a produção a optar pelo inglês. Os atores italianos se esforçam, mas visível que nenhum deles tem o domínio da língua. Em pelo menos dois casos, frases chaves ficam comprometidas por erros que foram deixados de lado por Ferrara. Por ser um filme que busca inspiração no próprio Pasolini, existem cenas de sexo explícito – em passagens que buscam dar uma ideia do que seria Porno-Teo-Kolossal, longa que seria o próximo passo da carreira do italiano.

Para quem tem pouca familiaridade com o diretor, o filme não pode, de maneira alguma, ser visto como uma espécie de introdução a vida de Pasolini. E quem já teve o privilégio de ler a monumental biografia de Barth Schwartz, fica a certeza do quanto Ferrara se equivocou no toque se sua história.

NOTA: 4/10

IMDb

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