Victoria – 2015

É inegável que uma produção como Victoria chame a atenção. Passamos por um período em que produtores e distribuidoras exigem roteiros rígidos, com pouca flexibilidade, para saber exatamente onde, no que e como investir. Com apenas doze páginas de roteiro, não existe o crédito para edição, já que o longa foi filmado de uma vez só. A experiência final, no entanto, é ambígua: ao mesmo tempo em que é extremamente interessante analisar outra proposta de storytelling, carregada de improvisação, as bases em que o filme busca consolidação são extremamente frágeis e vulneráveis. Uma versão contemporânea de Bonnie and Clyde, mas sem qualquer apelo que não seja justamente a forma como Victoria foi filmado.

Victoria (Laia Costa) curte as últimas horas da madrugada em uma danceteria no centro de Berlim. Com o amanhecer se aproximando, ele busca pelo menos uma hora de descanso antes de abrir a cafeteria em que ela trabalha, próximo do local. Ao sair do clube, ela encontra uma gangue de amigos composta por Sonne (Frederick Lau), Boxer (Franz Rogowski), Blinker (Burak Yigit) e Fuss (Max Mauff). Victoria se identifica muito com eles – e decide passar um tempo fumando, bebendo e conversando. Uma ligação recebida por Boxer muda tudo: o gangster Andi (Andre Hennicke), a quem o homem deve favores por conta de seu tempo de prisão, pede para os amigos assaltarem um banco no começo da manhã. Victoria acaba participando da ação, com desfecho trágico.

O diretor Sebastian Schipper merece crédito por investir boa parte da rodagem em cima da construção da personalidade de cada um de seus alvos. Victoria é uma espanhola que busca prosperidade em Berlim. Inocente, bondosa e sonhadora, ela não percebe o perigo de se envolver com Sonne e seus amigos. O inglês arranhado de todos os personagens (afinal, são alemães querendo contato com uma espanhola) mostra a complexa profundidade do roteiro. Seria muito fácil colocar atores para falar um inglês perfeito. Mas são nas pequenas falhas que o filme ganha vida e rumo. Testemunhamos até completar uma hora de rodagem uma grande conversa de amigos. Após isso o filme luta para conservar a atenção do público, mas deixa cair a bola com cenas de ação um tanto quanto previsíveis. É difícil trabalhar com o gênero crime na Europa, berço de algumas das melhores produções já feitas no cinema. O pecado de Schipper foi querer deixar seu final aberto, mantendo a análise voltada unicamente para o perfil de Victoria, sem contemplar seus pares.

Lançado em Blu Ray na semana passada, infelizmente o filme não recebeu nenhum extra. Decepcionante para quem queria saber mais detalhes sobre o dia de gravação.

NOTA: 6/10

IMDb

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