Primer – 2004

Poucos filmes independentes conseguiram sucesso graças a propaganda boca-a-boca como Primer. Bastante incomodado com a forma superficial com que o cinema trata sobre métodos de viagem no tempo, o matemático Shane Carruth usou seus sete mil dólares de sua conta poupança para tocar um projeto que estava guardado desde o final de sua graduação. Com uma linguagem impecável (e difícil para quem não tem conhecimento na área), a falta de recursos não compromete em nada o desenrolar da história, que abre espaço para profundas discussões.

Todo o filme de ficção necessita de uma introdução prévia do tema abordado, considerando que uma mínima porcentagem do público tem noção das leis da física, por exemplo. Quem faz faculdade de cinema ou já esteve envolvido em alguma oficina de escrita de roteiros nos EUA, sabe que essa regra é levada com bastante rigor pelos professores. Em nenhum momento de Primer existe a preocupação de introduzir o espectador no diálogo de Aaron (Carruth) e Abe (David Sullivan), protagonistas, que acabam criando uma máquina capaz de gerar uma realidade alternativa. Essa opção exige dedicação total em cada fala, já que o menor descuido pode gerar a perda de uma informação preciosa.

Carruth teve o bom senso de saber manipular as emoções. O pensamento da grande maioria – creio eu – seria manipular o mercado de ações, ou conseguir os números da loteria, caso tivesse acesso a uma máquina capaz de ‘espiar’ o futuro. É a partir justamente dessa questão ética que o filme aborda os caminhos diferentes optados pelos amigos, que não conseguem mais controlar seus impulsos. Aos poucos, Aaron e Abe deixam de lado suas convicções para se dedicar na máquina – cada um com uma visão bastante específica sobre a utilidade da mesma.

Primer virou o filme preferido sobre viagem no tempo da Academia dos Estados Unidos. Artigos científicos já foram elaborados tendo base no filme, e os métodos propostos por Carruth também foram alvo de programas na televisão. Por conta disso, nem um centavo na distribuição foi investido, mesmo com a premiação do juri de Sundance, em 2004. A magnífica trama tem potencial para continuar ganhando fãs, já que ninguém em Hollywood planeja fazer algo parecido – muito por conta da dificuldade de linguagem. Para quem achou Interstellar complexo, Primer é um desafio ainda maior, com várias peças abertas para montagem na cabeça do espectador. Para quem se interessar, um editor publicou na Wikimedia um gráfico completo sobre a viagem no tempo apresentada no longa. Clique aqui para conferir.

NOTA: 8/10

IMDb 

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