Man in the Wilderness (Fúria Selvagem) – 1971

Sempre que Hollywood lança uma superprodução, é normal o público correr atrás de tudo o que já foi feito antes sobre o mesmo tema. Quando Titanic conquistou o público, em 1997, a Fox foi inteligente o suficiente para lançar no mercado de home-vídeo a versão de 1953, dirigida por Jean Negulesco. Com o sucesso incrível de The Revenant, Man in the Wilderness (Fúria Selvagem, no Brasil) ganhou um espaço ímpar. Apesar de ser difícil estabelecer parâmetros de comparação para filmes tão diferentes, com objetivos tão distantes, a forma com que Hugh Glass foi abordado no longa de Richard C. Sarafian empolga pela hora inicial, mas nem mesmo o revisionismo proposto é suficientemente bom para apagar as grosserias feitas na metade final, onde o diretor parece esquecer a noção básica de continuidade.

Richard Harris é Zach Bass (adaptado de Hugh Glass), que, após ser atacado por um urso durante uma caçada, é deixado para trás pelo seus parceiros, após ordem do Capitão Henry (John Huston), que comanda a expedição em busca de novas rotas para o comércio de pele, na década de 1820.

Apesar de proclamar nos créditos iniciais de que a história contada no filme tem suporte histórico, o roteiro de Jack DeWitt, repetindo com Harris a parceria bem sucedida de A Man Called Horse (lançado um ano antes), tem sérios problemas estruturais, considerando que, neste caso, todos eles ocorrem a partir do uso descontrolado de flashbacks para firmar a posição de Bass como um homem arrependido por deixar sua família, fazendo considerações completamente desnecessárias sobre Deus e a bíblia.

A atuação de Harris esbarra no problema principal de seu personagem: apesar de dar certa credibilidade nos minutos iniciais de sua recuperação, logo que se levanta o ator não consegue manter um sofrimento básico constante. Para piorar, sua maquiagem é mal feita, e nas cenas finais Harris está sem nenhum machucado visível, com o cabelo bem penteado e mal percebe-se que, minutos antes, era anunciado que Bass havia quebrado duas costelas e uma perna. Em outra cena, Bass aparece domesticando um coelho na mata selvagem, uma forma de querer construir uma relação mais próxima com o espectador, como se o drama apresentado não fosse suficientemente bom para suprimir tal lacuna.

Ainda que cheio de erros, deve-se elogiar a postura dos produtores, que tiveram coragem suficiente para inverter a lógica de que os índios eram seres inferiores, como propagado por vários anos na indústria do cinema e alvo de protesto de nomes como Marlon Brando. Sarafian não está preocupado na disputa índio contra homem branco (apesar de ela existir), mas sim no acerto de contas de Bass com seu comandante – muito diferente do que em The Revenant, por exemplo, já que tudo gira em torno de seu rifle (mais próximo da realidade).

Com pouco sucesso em seu lançamento – motivado também pela enxurrada de westerns no começo da década de 1970 – Man in the Wilderness pode ganhar mais notoriedade como a primeira obra cinematográfica a explorar Hugh Glass. Nada mais que isso.

NOTA: 6/10

IMDb

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