Una giornata particolare (Um Dia Muito Especial) – 1977

O grande Ettore Scola, um dos maiores gênios do cinema italiano, faleceu ontem, 19 de janeiro de 2016. Sua brilhante carreira no cinema será lembrada em filmes que se tornaram clássicos – esculpidos pelo trabalho incansável deu um homem com fortes posições políticas. Una giornata particolare (Um Dia Muito Especial, no Brasil) é um de seus filmes mais aplaudidos e cultuados. E não pode ser diferente: a execução primordial de uma história com um contexto tão pesado é tratada de forma leve, com momentos de tensão definidos de maneira irretocável.

O grande diferencial de Scola foi saber construir ótimos panos de fundo para seus filmes. Isto não apenas o ajudou na distribuição internacional de seus longas, mas também é de suma importância para o espectador que não tem conhecimento da realidade italiana. No caso de Una giornata particolare, o roteiro é montado a partir de um dos encontros mais discutidos da primeira metade do século XX, que foi a visita de Adolf Hitler à Itália de Mussolini, no dia 8 de maio de 1938. Scola abre o filme com imagens de Hitler no trem que o transportava para Roma, retiradas dos noticiários do regime fascista. Essa base é necessária para entender não apenas o culto à personalidade em cima da figura dos dois ditadores, mas também no envolvimento da sociedade, que fazia questão de presenciar o evento.

Antonietta (Sophia Loren) é uma mãe de família considerada como exemplar para o regime: dedicada às tarefas de casa, preocupada com a criação de seus filhos e gentil com seu marido. No dia do grande evento de 1938 para a sociedade de Roma, ela fica em casa enquanto o restante de sua casa vai para o desfile. Seu vizinho, Gabriele (Marcelo Mastroianni), provavelmente é uma das únicas pessoas do edifício que não faz a mínima questão de estar no evento. Quando os dois se encontram após o pássaro de Antonietta fugir, o dia ‘especial’ começa.

A conversa entre os dois ajuda o público a entender o perfil de cada um: Gabriele é um homem perseguido pelo governo, descontente com sua situação atual após ser demitido de seu emprego (a razão da dispensa é interpretada por Mastroianni em uma cena memorável, que garantiu ao ator a nomeação ao Oscar de sua categoria, algo raro para filmes europeus); Antonietta é submissa, enxerga Mussolini como um Deus na terra, vive fechada em torno das tarefas domésticas. Os dois desenvolvem uma atração mútua, com objetivos um tanto quanto diferentes.

É em torno dessa ‘zona de especulação’ que os dois se aproximam. Ao fundo, a rádio italiana anuncia cada passo da visita de Hitler. Com uma câmera flutuante, que deixa o espectador como um observador de cada passo do casal, os dois protagonistas, no auge de suas carreiras, brilham.

A edição em Blu-Ray da Criterion, lançada três meses atrás, é definitiva e conta com entrevistas de Loren e Scola, que fazem análises de grande importância sobre o desfecho final do filme e suas visões sobre os dois personagens. Una giornata particolare é único. O diretor desenvolveu um filme que tem a capacidade de levantar grandes discussões (papel da mulher na sociedade, culto à personalidade e repressão) a partir de um caso que ocorre em um apartamento de Roma.  Inesquecível, que marca o legado de um grande diretor e roteirista da história do cinema. Obrigado, Scola!

NOTA: 8/10

IMDb

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