Suffragette (As Sufragistas) – 2015

Quando o BFI anunciou a produção de Suffragette (As Sufragistas, no Brasil) em um esforço que contou com o apoio do governo britânico e de várias produtoras interessadas em alinhar sua imagem junto da defesa dos direitos da mulher, utilizou-se a promoção de Meryl Streep no papel de Emmeline Pankhurst para vender ao mundo a ideia de um longa-metragem definitivo em seu gênero. Se a diretora Sarah Gavron conseguiu atingir com clareza as bases do movimento inglês, pergunto-me por qual razão Pankhurst – a cabeça de todo o movimento – teve um papel secundário. Se o objetivo era contar a história do movimento através da classe trabalhadora – algo louvável, então por qual motivo destacar uma personagem que tem um minuto de tela? Só por conta do renome da atriz que a interpreta? A resposta é simples, e é justamente nela que se encontra o principal problema de uma produção competente: marketing. Aliás, marketing mal direcionado.

Ninguém pode discordar da importância do movimento sufragista. Tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, a força das mulheres através de marchas, atos públicos e até mesmo ataques organizados foi fundamental para ganhar notoriedade para a causa. Existia o pacto silencioso da imprensa junto ao governo para diminuir a importância feminina na sociedade, resumindo sua tarefa em fazer filhos e participar de atividades domésticas (no caso do filme, em uma fábrica de lavagem química). E quando a mulher conseguia ocupar o mesmo cargo do homem – algo raríssimo, por sinal – a diferença de salários era exorbitante. A justificativa era sempre a mesma: a cabeça masculina pensa melhor.

Como produção cinematográfica, Suffragette expõe um ótimo patamar geral sobre as dificuldades do cotidiano da luta feminina. Vários eram os rivais: o poder público através do aparato de Estado, que perseguia, persuadia e colocava atrás das grades as mulheres que desafiavam questionar a ordem; o judiciário, que moldava suas leis através da figura masculina, e não garantia nem mesmo a proteção do direito da mãe sobre seu filho; e os atos ocultos fora da lei, como espionagem e tortura psicológica. Em pelo menos um momento do filme, cada um destes casos citados é exposto com bastante clareza. Até mesmo a criação do aparato de defesa feminina e as famosas greves de fome, amplamente discutidas nos jornais, estão presentes.

1912: após cinquenta anos de protestos pacíficos, o movimento sufragista inglês decide intensificar suas ações e tomar medidas mais agressivas para garantir que o governo ouça seus apelos para que o voto feminino se torne uma realidade. Neste sentido, Maud Watts (Carey Mulligan, em uma personagem baseada em várias sufragistas) decide deixar de lado sua passividade e entra para o movimento, contrariando os apelos de seu marido (Ben Whishaw). Procurando defender as lições de Pankhurst (Streep), Maud sabe que coloca em risco sua família e seu pequeno filho por conta de uma causa – que ela considera maior que sua existência. Por isto ela não tem medo das consequências delas, tampouco da morte.

Recentemente abriu-se uma discussão sobre o motivo de nenhuma negra ser protagonista em Suffragette. Como historiador por formação, não consigo entrar no pensamento anacrônico de que era necessário deixar claro que as negras também lutavam pela defesa dos direitos femininos. Voltando à Inglaterra da transição do século XIX para o século XX, deve-se salientar que a maioria esmagadora da população era branca, diferentemente dos EUA. Portanto, neste caso concordo com a visão da diretora, que logo se defendeu das críticas citando que seu roteiro foi construído sob supervisão de professores da área. O que não concordo, no entanto, é a forma com que o marketing do filme foi feito. O destaque excessivo feito em torno de Emmeline Pankhurst seria perfeitamente justificável caso ela fosse amplamente explorada. Como a grande mente por trás das sufragistas, ela e sua incrível trajetória poderiam dar vida a pelo menos um bocado de cenas interessantes, que se passavam justamente na época abordada. Não é o caso – e fica claro o interesse único em cooptar público apenas em torno da presença de Streep – e não da fantástica história apresentada. Os erros continuam quando a diretora autoriza o elenco a participar de uma sessão de fotos em que a frase “I’d rather be a rebel than a slave” – de Emmeline – estampava a camisa das sorridentes atrizes. Ora, além de descontextualizar completamente uma citação séria, obviamente existia o problema de aprofundar ainda mais a discussão racial – desta vez, em um tom bastante negativo. E foi o que aconteceu.

Polêmicas à parte, Suffragette é um bom filme. Não se pode esperar que uma produção de menos de duas horas cubra com detalhes um movimento de tamanha grandeza. Por isto, a ideia é tornar deste longaum ponto de partida para aprofundar leituras e até mesmo estender a discussão do direito feminino para os dias de hoje, como o longa faz com muita convicção quando menciona a promessa da Arábia em garantir o voto das mulheres.

NOTA: 7/10

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As Sufragistas
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