Letyat zhuravli (Quando Voam as Cegonhas) – 1957

Vencedor da Palma de Ouro de 1958 e considerado como um dos principais filmes produzidos pela soviética Mosofilm, The Cranes Are Flying (Quando Voam as Cegonhas, no Brasil) propõe introduzir ao espectador uma mistura de drama de guerra com conteúdo a tradicional linha de propaganda patriótica imposta pelo governo Stalin.

Mikhail Kalatozov sentiu na pele a completa censura do ditador soviético. Após ver seu terceiro filme banido parcialmente, em 1931, o diretor rendeu-se a proposta comunista de exaltar elementos da pátria e participou da iniciativa de implementar o culto a personalidade de Stalin nas telas do cinema . Durante a Segunda Guerra Mundial, foi o responsável por comandar três filmes de propaganda, vendidos para os Estados Unidos e países aliados.

Foi apenas com a morte de Stalin, em 1953, e o subsequente processo de diminuir a importância do ditador, conforme recomendado pelo então secretário Nikita Khurchev, que Kalatozov decidiu deixar de lado o cinema propaganda para investir no drama. Neste sentido, The Cranes Are Flying se tornaria o primeiro de seus quatro filmes que marcaram época.

1941: a Alemanha invade a URSS. Boris é um rapaz que decide se alistar ao Exército Vermelho e é convocado para a Guerra pouco antes do aniversário de Veronica (Tatyana Smoilova), sua namorada. Disposto a lutar e voltar para sua terra natal como herói, a batalha no front acaba refletindo no dia a dia de sua família e de Veronica.

Kalatozov não rompeu com suas raízes de uma hora pra outra. É notável que os vinte anos de lavagem cerebral dentro dos Comitês de Cultura do Partido Comunista influenciaram sua percepção de cinema. Se a propaganda contida em seus outros filmes era escancarada, neste caso ela é bem menos forte, mas existe. O espectador mais atento, por exemplo, vai encontrar uma série de reflexões secundárias sobre a Segunda Guerra Mundial e através dos atos de coragem e bravura de Boris.

No entanto, evidentemente é no renovado drama que este filme encontra espaço. Podemos discutir, por exemplo, sobre o conceito de moral empregado a partir da figura de Veronica. Em determinada cena, ela parece ser estuprada por Mark, primo de Boris. Ela toma para si a vergonha do ato e aceita se casar com o homem, mesmo sabendo do sofrimento de seu namorado. A partir deste conflito pessoal, o filme cria uma excelente discussão sobre a importância da luta no front, ressaltando a importância dos heróis de guerra e da lembrança aos que não resistiram.

Veronica nunca mais encontraria seu verdadeiro amor. A crucial cena que fecha o longa é considerada um marco para o cinema soviético. A libertação da personagem principal daria, a partir dali, certo protagonismo a figura da mulher, algo completamente impensável na década anterior, por exemplo.

Um clássico que coloca o romance em segundo plano e ainda assim é bom o suficiente para conduzir uma interessante história.

NOTA: 7/10

IMDb

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