Carol – 2015

Por mais de uma década, a produtora Number 9 buscou parceiros para bancar a adaptação de The Price of Salt, escrito por Patricia Highsmith. Ao contar parte da história de sua vida e trabalhar o livro em torno de um drama que tem desfecho positivo, a autora (que usou um pseudônimo para publicação) conseguiu aclamação da crítica literária que se mostrava receptiva às obras que abordavam o homossexualismo. Carol é um filme que faz jus a longa espera, com duas atrizes de ponta em perfeita sincronia. O resultado é apresentado em um espetacular longa, que vem para marcar campo em seu gênero.

Semana de Natal em Manhattan: Carol (Cate Blanchett) sai em busca de uma boneca para sua filha em uma loja de departamento e é atendida por Therese (Rooney Mara), que informa que todo o estoque já foi vendido, mas sugere uma edição limitada de um trenzinho – o sonho de sua infância. Após o atendimento, Carol ‘se esquece’ de uma de suas luvas no balcão da loja. A troca de olhares entre as duas e o rápido diálogo logo começa a tomar conta da cabeça da vendedora, que está envolvida em um conturbado relacionamento com um rapaz que planeja se mudar para a França e se casar com ela. Carol, por sua vez, enfrenta um longo processo de divórcio com seu marido, Harge (Kyle Chandler), que pode acabar em uma longa batalha judicial pela guarda da filha do casal. Após Therese devolver a luva, Carol a convida para passar o Natal com ela, o que é prontamente aceito. Aos poucos, a afeição mútua ganha traços de um romance proibido – o que mexe com a cabeça de Therese e balança até mesmo a experiente Carol.

Não podemos nos esquecer do contexto em que o livro foi escrito: na década de 1950, o lesbianismo era visto como um grave desvio de conduta (algo que é trabalhado no filme de forma extremamente eficaz, uma vez que Carol fica longe de sua filha após seu ex-marido conseguir provas de que ela se envolvia com mulheres). A sociedade ficava a cargo da condenação moral, e era comum casos de depressão seguidos de suicídio por conta de toda esta pressão.

Por toda a carga emocional envolvida, ninguém melhor do que Todd Haynes para dirigir este filme. O veterano apenas confirmou sua maestria em explorar o drama feminino, que já era notável na premiada minissérie Mildred Pierce. Haynes divide o crédito da espetacular adaptação com a roteirista Phyllis Nagy, que mostrou uma extraordinária facilidade de resumir casos secundários para dar foco ao desenvolvimento das duas personagens, o que torna prazerosa a experiência com Carol.

A ambientação cuidadosa, comprovada nos mínimos detalhes, seja no discurso de Eisenhower em um set clássico de televisão ou nos carros da Ford desfilando em estradas recém abertas apenas elevam o nível da maquiagem e das caracterizações preciosas. Edward Lachman, diretor de fotografia predileto de Haynes, opta por focar as tomadas conjuntas no rosto de Blanchett, uma decisão acertada, dado o nível de maturidade da atriz, que deixa claro que merece estar entre as nomeadas ao Oscar.

O baixo custo do filme (10 milhões de dólares) ressalta a qualidade e o cuidado dos produtores para dar vida a uma complexa história de um desejo incontrolável. Experiência única!

NOTA: 8/10

IMDb

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