A fost sau n-a fost? (12:08 Leste de Bucareste) – 2006

Existem fatos que marcam profundamente uma geração. Já ouvi de várias pessoas que viveram na década de 1960 se lembrarem do que estavam fazendo no momento em que ouviram a notícia da morte do presidente Kennedy. A chegada do homem à lua e a queda do Muro de Berlim também fazem parte desta lista. Mais recentemente, por exemplo, todos nós temos a experiência viva do 11 de setembro. É comum, em discussões, cada um lembrar do que estava fazendo assim que as primeiras imagens da primeira torre em chamas tomaram conta dos noticiários.

No entanto, cada país tem seu evento coletivo específico. No caso brasileiro, acredito que a morte de Ayrton Senna seja bastante relevante. Na Romênia, no entanto, a pergunta que clama pela memória pública é: ‘o que você estava fazendo quando a revolução derrubou o governo de Nicolae Ceauşescu, no dia 22 de dezembro de 1989?’ Uma das melhores comédias políticas produzidas recentemente, A fost sau n-a fost? (12:08 Leste de Bucareste, no Brasil) visa tratar deste fato clamando por questões cotidianas a partir de três pessoas normais.

A construção de cada personagem é decisiva para o desenrolar da história. Piscoci (Mircea Andreescu) é um idoso que vive dias de irritação. Apesar de sua dedicação e entrega as tarefas de sua pequena cidade, ele não compreende o motivo das crianças brincarem com ‘bombinhas’, mostrando-se rabugento. Manescu (Ion Sapdaru) é um professor de história alcoólatra que passa por graves problemas com dinheiro. Todo seu salário é usado para pagar dívidas com terceiros, e ele entra em um círculo de empréstimos que parece não acabar nunca.

Jderescu (Teodor Corban), dono de uma rede de televisão local, chama estes dois para um grande debate. Qual o papel da cidade de Vaslui na Revolução Romena? E qual a participação de cada um destes homens no episódio que marcou profundamente a virada dos anos 80 para a década de 1990 na Europa Oriental? O diretor Corneliu Porumboiu, vencedor do Caméra d’Or em Cannes por conta desta produção (seu primeiro longa) abre uma interessante discussão entre história e memória. Em um primeiro momento, nota-se a vontade tremenda de Manescu em mudar o rumo dos acontecimentos e se firmar como um personagem relevante no evento de dezembro de 1989. Só que, a partir do momento em que o apresentador abre as linhas telefônicas para a participação do público, os telespectadores começam a contar uma outra história.

A mensagem de Porumboiu é simbólica: após a Revolução, todos querem tomar os louros e se considerar revolucionários, quando a realidade é bastante diferente. A partir da análise de Vaslui, um dos personagens argumenta que a revolução é como a distribuição de energia: começa em um determinado local (centro/capital) e aos poucos é repassada para locais mais distantes. Apesar da produção ser extremamente simples, a teoria por trás do filme é bastante válida. A evidente manipulação da memória coletiva e a forma com que a população se comporta a partir da reconstrução do dia 22/12/1989 clamam todo o tipo de recordação possível.

Importante filme da New Wave Romena, 12:08 Leste de Bucareste trata de forma indireta apenas uma das várias feridas abertas na história romena. Apesar da escala reduzida, é indiscutível que existe um enorme potencial em fazer discussões acadêmicas de alto nível a partir deste caso.

NOTA: 7/10

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