Mustang (Cinco Graças) – 2015

A França possuí a mais acirrada disputa interna para nomear um filme para o Oscar de longa estrangeiro. A seleção de Mustang (Cinco Graças, no Brasil) – um filme em turco sobre problemas turcos – para competir nesta categoria na premiação do próximo ano já seria um fator de interesse para assistir a esta produção.

Aplaudido em Cannes, Mustang não é apenas uma versão turca de The Virgin Suicides, como se diz por aí. Tal análise é superficial, pois engloba o objeto central e deixa de lado todas as especificidades do país onde se passa a história.

Em um pequeno vilarejo turco, cinco irmãs órfãs criadas por um tio extremamente conservador e por uma vó que não consegue se impor perante a autoridade masculina, passam por problemas. Após o último dia de aula, elas vão ao mar comemorar o fim do ano letivo. Uma vizinha conta na cidade que elas estavam ‘sentindo prazer’ se esfregando nos ombros dos meninos com quem brincavam na água, o que causa a revolta delas. É então que o rígido tio dá a ordem: sem mais contato com nenhum tipo de ferramenta que possa desvirtuar cada uma delas até o casamento. Sem telefone, sem computador, sem futebol. Aos poucos, a casa onde elas vivem é gradeada e elas deixam a vida para trás. Em uma sociedade de casamento arranjado, as jovens – que variam dos 12 aos 17 anos – são prometidas a homens por quem não sentem nenhuma atração. É então que acompanhamos uma série de episódios que afetam a vida de cada uma delas.

O filme abre campo para uma série de reflexões, que passam desde o machismo ímpar da sociedade turca até os horrores da fábrica de casamentos típica da região. Também mostra como a transição da infância para a adolescência pode ser dolorosa.  A diretora Deniz Gamze Ergüven merece os louros por saber mesclar muito bem o drama com pequenas fugas da realidade – breves namoros, escapadas- e também por tirar o máximo de cada uma das jovens atrizes.

Desde 1992 os franceses não levam para casa o prêmio da Academia. Em um ano difícil por conta da acirrada competição (e o cercamento em torno do favorito, Son of Saul), é possível que Mustang não receba a atenção que mereça, ficando disponível apenas a um restrito círculo europeu e a boa vontade de um distribuidor comprar os direitos no Brasil, o que é uma pena, pois temos aqui um excelente filme, com atuações de responsabilidade e um roteiro bem moldado a uma realidade pouco discutida no ocidente, o que pode chocar alguns.

Mustang é um grito de liberdade. Em um país em franco desenvolvimento como a Turquia, mais uma vez o cinema coloca como instrumento de mediação. Um filme para ver e refletir. Para discutir, rediscutir e, aos poucos, mudar uma sombria realidade.

NOTA: 8/10

IMDb

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