Last Days in Vietnam – 2014

Que os americanos tiveram o maior fiasco militar de sua história no Vietnã, todos estamos cansados de saber. Ainda assim, desde 1975 temos um bocado de documentários lançados anualmente que tratam das falhas estratégicas, da resistência interna ou mesmo dos dramas e feridas pessoais que marcaram uma geração de soldados. Poucos são os diretores e produtores que arriscam ultrapassar esta zona de conforto, uma vez que este tema vende (e bem). Por conta disso, a proposta de Last Days in Vietnam merece todos os elogios disponíveis. Através de entrevistas com pessoas chaves na administração Nixon/Ford – incluindo o Dr. Henry Kissinger – a diretora Rory Kennedy (filha de RFK) consegue explorar histórias ocultas dos últimos dias da presença estadunidense em Saigon.

A grande sacada deste documentário é procurar uma fonte de drama fora do campo de batalha. Após a renúncia de Nixon e a chegada de Gerald Ford ao poder, o Vietnã do Norte viu que seu caminho para o sul estava aberto, já que os diplomatas comunistas sabiam dos problemas domésticos dos EUA e não consideravam que Ford estivesse disposto a arriscar seu capital político em uma outra investida. Com isso, a invasão final de 1975 colocou o Embaixador americano Graham Martin em uma delicada situação: se admitisse a derrota, um caos poderia ser instalado em Saigon – o que colocaria em risco a vida dos cinco mil americanos que viviam por lá. Se optasse por permanecer sem um plano de fuga, as tropas comunistas poderiam tomar a qualquer momento a cidade e prender todo corpo diplomático americano. Apesar da teimosia de Martin, que somente aceitou esboçar o plano de retirada quando viu que a situação era insustentável, mais de 100 mil pessoas foram evacuadas do Vietnã do Sul – sendo 70% delas através das operações mostradas aqui.

Com ótimas fotografias, áudios e vídeos de abril de 1975, o espectador facilmente interage com os acontecimentos do período. A opção pelo uso de gráficos também foi bem pensada, e ajuda muito bem na contextualização dos planos de fuga dos americanos. Como historiador, considero que o maior problema de Last Days in Vietnam foi não apontar culpados e aceitar a versão dos fatos oferecida por Kissinger como a final. Esta crítica não deve ser levada ao pé da letra, já que a discussão política em nenhum momento é o alvo central, mas fico um pouco receoso de não ver um debate sobre algumas bobagens ditas por oficiais americanos para propagar a “versão oficial” da história.

Quando estava cobrindo o Oscar, notei que boa parte de meus colegas não deu a atenção que este documentário merecia – nota-se que o assunto Vietnã ainda é um tabu na sociedade americana. Apesar de notórias falhas de planejamento de distribuição (Last Days sofreu de um problema parecido com The Salt of the Earth), Kennedy fez por merecer sua indicação e nos brinda com um trabalho de pesquisa primoroso.

NOTA: 8/10

IMDb

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