The Crowd (A Turba) – 1928

Seria possível um filme mudo estar a frente de seu tempo? Ao olhar para The Crowd (A Turba, no Brasil) digo que a resposta é sim, apesar de que tal afirmativa possa soar como um exagero. Indicado ao Oscar de melhor produção artística e de melhor diretor, o longa da MGM ganhou um bocado de admiradores nas décadas posteriores ao seu lançamento. The Crowd usou e abusou da câmera em movimento (algo que Sunrise havia feito de forma interessante – ainda que contida – no ano anterior), e apresentou tomadas que deixaram o público de queixo caído. Mas se a aceitação na época foi boa, o leitor deve estar perguntando por qual motivo considero um filme ímpar na história do cinema. Pois bem, na transição do mudo para os talkies, todos os estúdios de Hollywood tiveram que começar do zero o know how de suas produções. O efeito mais visível foi o uso da câmera estática por toda a década de 1930. Foi por este motivo que The Crowd virou um padrão de referência estética por pelo menos dez anos, e seria cultuado pelos diretores pós guerra.

O filme trata sobre os altos e baixos da vida de John Sims (James Murray), que cresceu ouvindo de seu pai que seria um grande homem. Após atingir a maioridade, ele tenta ganhar a vida em Nova York, onde encontra sua futura esposa, Mary (Eleanor Boardman). A rotina do casamento e a difícil personalidade de Sims acabam tornando a vida do casal um problema maior que a encomenda, que ficaria ainda pior após o desastre que mata um de seus filhos. Com uma progressão bastante satisfatória, acompanhamos a queda de John, que é trabalhada a partir de uma série de questões morais que ficam a cargo do espectador.

Outro fator relevante que deve ser tratado diz respeito a temática. Como vimos, a história é excessivamente dramática. Após a Grande Depressão, o público americano começou a rejeitar ir ao cinema para ver tal tipo de película, e os espectadores que prestigiavam o gênero drama passaram a optar romances como Grand Hotel, por exemplo. Os produtores entenderam a mensagem de que o público queria alegria, queria imaginar e se colocar em um situação que dificilmente se tornaria realidade na vida deles, e não a tristeza e depressão como apresentado neste filme. Irving Thalberg dizia que os estúdios deveriam presentear as pessoas com um grande filme por ano, sem se preocupar com a bilheteria, mas com atenção apenas a história. The Crowd foi o último exemplo que poderia ser encaixado neste pensamento do pioneiro do cinema americano no período de transição mudo/talkie.

O filme foi um dos primeiros a mostrar um banheiro nas telas do cinema, fato que gerou algum mal estar dentro da MGM. Conta-se que Louis B. Mayer apontou tal tomada como uma falta de respeito, já que o banheiro era um lugar privado e que jamais deveria ser explorado. É interessante também notar os padrões da sociedade americana de quase um século atrás sobre relacionamentos e relações de trabalho.

O diretor King Vidor foi um dos primeiros homens a buscar explorar ao máximo o uso da cidade. O espectador atento nota que em uma determinada cena um policial gesticula para um grupo de pessoas sair dali. O barato deste cena é que o policial era de verdade e as pessoas que ele queria que deixassem o local era justamente a equipe de produção de Vidor, que foi inteligente o suficiente para aproveitar a tomada em seu longa. Infelizmente o ator James Murray teve um destino final muito parecido com as últimas cenas do filme. Após não conseguir repetir o sucesso no cinema com som, Murray passou a atuar no elenco complementar de várias produções pequenas e acabou perdendo a batalha para o alcoolismo. Em 1934, King Vidor viu seu ex-companheiro pedir dinheiro na rua e o convidou para atuar em Our Daily Bread, sequência de The Crowd. Assim como seu personagem, Murray rejeitou a oferta por considerar que ela foi feita por pena. Dois anos depois, o ator morreu afogado, e Vidor escreveu uma peça sobre a trajetória de sua vida (que jamais saiu do papel).

The Crowd é um filme mudo que parece não ter sofrido com o tempo. Sua temática realista e dramática o aproxima muito de várias produções que fizeram sucesso nas décadas posteriores no cinema americano.

NOTA: 8/10

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