Luci del varietà (Mulheres e Luzes) -1950

Primeiro filme com créditos de direção de Frederico Fellini, Luci del varietà (Mulheres e Luzes, no Brasil) chama mais atenção pelas histórias de bastidores do que pela obra propriamente dita. Após orquestrar o longa junto de Alberto Lattuada, logo iniciou-se uma rixa entre os diretores dois italianos sobre os créditos deste longa. Em uma entrevista no ano de 1971, Fellini dizia não se lembrar quais cenas ele havia dirigido, mas considerava este filme como um filho seu por ter escrito o roteiro e ter selecionado os atores. A ideia, segundo ele, surgiu após ver uma equipe de teatro comandada por Aldo Fabrizi vagar pelas ruas de roma. Não demorou muito para Lattuada lembrar que foi ele que abriu as portas do cinema para seu ex-parceiro ao aceitar dividir a direção deste filme, uma vez que Fellini era reconhecido apenas como um promissor roteirista, inclusive escrevendo para o próprio Lattuada. No livro Federico Fellini: Interviews, é interessante notar como o grande diretor vencedor de cinco Oscars de filme estrangeiro perde a paciência quando a entrevistadora insiste em perguntar sobre suas opiniões sobre esta produção.

A história lembra muito All About Eve, também de 1950, mas sem o glamour deste. O interesse por temas do neorealismo italiano fica de lado para dar lugar a um grupo de teatro que viaja de uma cidade a outra em busca da fama (e de comida e dinheiro). A comédia dramática ganha corpo quando a bela jovem Lily (Carla Del Poggio) tenta deslanchar na vida teatral e vira a musa de Checco (Peppino De Filippo), empresário do meio artístico que tem um leque de ideias boas mas sempre peca na execução. Ao ver seu posto ameaçado, Melina (Giulietta Masina) busca provar que tem recursos para ser a próxima estrela do teatro italiano. E é justamente este personagem que cria um laço de afeição com espectador, por conta do carisma e presença de tela da incrível Masina.

O fato é que Luci del varietà combina elementos tanto de Fellini quanto de Lattuada. Enquanto os traços de Fellini podem ser notados nas praças vazias, nas longas festas que se arrastam pelas madrugadas e nas andanças da trupe de teatro, o melodrama característico de Lattuada pode ser visto nas cenas repletas de diálogos, na trilha sonora triste, no amor não correspondido e na veneração a sua esposa, Carla Del Poggio. Por outro lado, Giulietta Masina aparece pela primeira vez no papel que faria pelos próximos quinze anos: uma mulher mal-amada, sofredora e pronta para perdoar.

Apesar das disputas – que ainda hoje são discutidas no campo acadêmico – Luci del varietà é um filme essencial para entender a evolução do conceito de cinema de Fellini.

NOTA: 7/10

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