Citizenfour – 2014

Antes de começar esta crítica – a primeira em língua portuguesa sobre este documentário – uma notícia: no dia 3 de fevereiro de 2015 os Estados Unidos anunciaram publicamente que vão colocar limites em seus programas de espionagem no campo doméstico e externo. A trajetória de todo escândalo que estampou por vários meses os principais jornais do mundo é contada de maneira surpreendente em Citizenfour, um bom exemplo de como o cinema vérité ainda tem espaço (basta ter cuidado na produção e confiar na história, como The Act of Killing fez em 2012).

Se você estava desligado e não ficou por dentro das revelações feitas pelo homem que tinha acesso a todos os tipos de documentos da National Security Agency (NSA), não se preocupe. O documentário trata de dar um passo de cada vez e contextualizar quem era Snowden, quais eram seus objetivos, e também explora as razões pela qual ele acreditava que o mundo precisava saber do controle das nossas vidas pela NSA. Para quem acompanhou o caso de perto, é gratificante ter um insight sobre a forma com que o jornalista do The Guardian, Glenn Greenwald, organizou suas primeiras entrevistas com Snowden em Hong Kong e lançou a história na mídia. Alguns interessantes flashes da CNN cortam algumas cenas para tratar do que acontecia em tempo real.

A partir da metade final do documentário, a produção deixa de lado Snowden (que havia pedido refúgio na Rússia) e passa a acompanhar de perto como Glenn veio ao Brasil trazer a bomba de que a NSA espionava o governo e interceptava uma imensa quantidade de informações do Facebook, Google, Yahoo (dentre outros) dos brasileiros. A parceria de inteligência EUA – Reino Unido também é abordada de maneira superficial, assim como as reuniões da União Europeia que tratavam sobre o caso.

O filme dividiu os Estados Unidos, como é de costume em tudo o que se trata de política. Os que consideram Snowden um herói certamente receberam positivamente a proposta da jornalista Laura Poitras, a primeira a ter contato direto com o informante (que usava na época o codinome Citizenfour). Já aqueles que pedem Snowden julgado como traidor da pátria, acusam a diretora de não abrir espaço para críticas e outras interpretações sobre o que a relevação de tais dados causou nos programas americanos de combate ao terrorismo (uma explicação muito fraca, convenhamos).

O poderoso documentário – favorito ao Oscar 2015 – deixa várias questões em aberto, fato compreensível por conta da incrível quantidade de tópicos que poderiam ser discutidos. A mensagem final é repassada durante uma conversa em que Glenn escreve para Snowden as últimas informações sobre o programa de espionagem dos EUA na Alemanha escrevendo em folhas de papel, que mais tarde são rasgadas, amassadas e jogadas em cima de uma mesa. Uma grande reflexão sobre nossa privacidade.

NOTA: 8/10

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