The Imitation Game (O Jogo da Imitação) – 2014

The Imitation Game (O Jogo da Imitação, no Brasil) é puro entretenimento. Melhor dizendo, foi a forma com que os produtores encontraram para tornar a vida de Alan Turing atraente para o grande público. O maior problema, no entanto, é dar o poder para um grupo de pessoas desconsiderar a história no momento em que se tornam seletivos e viram verdadeiros Deuses do tempo para julgar o que é e o que não é relevante para tratar da quebra do Enigma, a máquina alemã de encriptação considerada perfeita e impossível de ser quebrada pelas principais mentes da década de 1930. Como minha formação acadêmica é na área da história, dou muita atenção a forma com que um filme busca a contextualização de determinados eventos propostos para análise. Neste caso, temos a Segunda Guerra Mundial como plano de fundo. No ano passado tive a oportunidade de ler três obras que tratam sobre o Enigma para extrair o máximo deste longa.

Entre elas estava a base para o roteiro – Alan Turing: The Enigma – livro escrito por Andrew Hodges. Apesar de autor ser um professor de matemática destacado no cenário europeu, é nítido que sua base de pesquisa histórica é muito carente. Ainda assim, reconheço que sua narrativa é muito boa, com um toque delicioso que faz você ler toda a obra em poucos dias. A trama é contada em três camadas: a primeira mostra Alan Turing (Benedict Cumberbatch) em 1951, quando a polícia recebe a denúncia de que a casa do matemático foi assaltada. Na verdade, este seria apenas o primeiro capítulo da perseguição pessoal feita pela polícia inglesa contra Turing – até que a verdade é exposta e ele confessa ser homossexual. A segunda camada – onde está a maior parte da rodagem e todo o desenvolvimento –  busca levar ao espectador a rotina de trabalho de Bletchley Park, local onde Turing e sua equipe quebraram o código Enigma. Por fim, a terceira parte visa explorar o lado pessoal de Turing ao investigar seu comportamento na escola e sua grande amizade com seu colega, Christopher.

Benedict Cumberbatch dá vida a um daqueles homens que hora que outra são considerados “a frente de seu tempo”. Apesar de não gostar muito desta expressão, esta é a forma que a família do matemático defende seu legado até hoje, e esta é a proposta de The Imitation Game, goste ou não goste. Keira Knightley provavelmente deve receber uma nomeação ao Oscar por interpretar a auxiliar Joan Clarke, que tem um papel fundamental e ganha um destaque maior até mesmo do que Hugh Alexander (Matthew Goode). Isto ocorre, obviamente, pela necessidade de colocar uma mulher em destaque, abrindo um grande leque de possibilidades para explorar a relação de Alan com moça que um dia foi sua noiva.

A seguir, proponho partir para uma análise histórica do que é mostrado no longa e confrontar com a realidade através de bibliografia especializada. Não tenho a menor sombra de dúvidas que o espectador que jamais ouviu falar em Turning vai sair da sala de cinema convicto de que este gênio era realmente um problemático anti-social do mais alto nível que venceu a Segunda Guerra Mundial devido a seu trabalho – o que, de todo, não é verdade. Sim, Turning foi essencial para a primeira etapa da quebra do Enigma (que, por sinal, não foi tão simples quanto o mostrado no filme). Para evitar entrar em uma discussão extremamente teórica com o amigo leitor, peço licença para simplificar e expressar o ponto mais absurdo e inacreditável desta história. Após Turning decifrar o código Enigma de três rotores, os alemães decidiram incrementar a segurança de suas transmissões e adotaram uma etapa extra de proteção ao adicionar um quarto rotor – o que eles pensavam ser suficiente para os proteger por pelo menos seis anos. Só que The Imitation Game comete o pecado de simplificar o Enigma a uma máquina que permaneceu com o mesmo padrão desde 1939 (o que já desafia o bom senso) e usa esta premissa para reconstruir toda história ao contar uma versão na qual Turning e sua equipe julgavam quem deveria morrer ou sobreviver nos ataques interceptados pelos britânicos – algo que, obviamente, não ocorreu. Outra coisa que deixa uma impressão errada sobre Tuning é pensar que ele construiu o seu projeto do zero, como apresentado neste filme. Na realidade, os poloneses já estavam desenvolvendo um método para quebrar o código meses antes da invasão que resultou o começo da Segunda Guerra Mundial. Tuning sabia os avanços que eles tinham feito e organizou toda seu projeto a partir destes estudos com seu colega, Gordon Welchman (que não é mencionado sequer uma mísera vez!). Isto leva o público na conclusão óbvia de que Alan foi o responsável pela base teórica, montagem e aperfeiçoamento da máquina para decifrar o Enigma, deixando de lado o crédito ao engenheiro Harold Keen (que também não é mencionado).

Entre outros erros encontrados, posso citar a inexistente relação entre Alan e John Cairncross (os dois trabalhavam em áreas separadas) e do matemático com o serviço secreto inglês, mencionado no longa na figura de Stewart Menzies (Mark Strong). Trabalhos diferentes, áreas diferentes. Turing sai de cena como uma mártir LGBT – algo bastante questionável. O filme novamente toma outros rumos ao propor uma teoria para o suicídio de Turing (algo que até hoje é discutível) – que passa diretamente pelo resultado de sua castração. Nas cenas finais vemos um matemático fora de si, incapaz de pensar de forma coerente, o que foge completamente da realidade, já que Alan foi um dos precursores da popularização do estudo da matemática biológica justamente após o procedimento feito pelo governo inglês ao descobrir sua homossexualidade.  A publicação de The Chemical Basis of Morphogenesis é vista como um texto base para a área até hoje.

O pior de tudo é a forma como os produtores decidiram caracterizar alguns personagens. Poderia citar a bibliografia acadêmica para desconstruir cada um dos envolvidos, mas vou restringir minha exposição de um personagem: Alastair Denniston. O comandante da Royal Navy parece ser o malvado da história ao se opor aos projetos e ao não apostar no potencial de Turing. Neste caso, mais uma forma de como não adaptar um roteiro, visto que os produtores deliberadamente alteraram completamente os registros que existem sobre o comandante para não fugir da fórmula herói/vilão. Pobre Denniston. Apesar de realmente não apostar muito na máquina do grupo de Bletchley (que se chamava Bomba. Christopher foi uma invenção), suas suspeitas sobre o projeto foram deixadas de lado após Churchill entrar de cabeça no projeto. Por sinal, o melodrama que arrasta a metade final da história esquece os três anos finais da Segunda Guerra.

The Imitation Game é um exemplo de como fazer entretenimento e de como não fazer uma cinebiografia. O Alan Turing de Morten Tyldum não é o Turing da história.

NOTA: 6/10

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