Gangs of Wasseypur – 2012

Tem coisas que só um crítico de cinema ou alguém que é muito apaixonado por filmes faz. Uma delas é assistir a uma película de cinco horas e meia sem nenhuma pausa. Gangs of Wasseypur é considerado pelo povo da Índia como o Godfather de lá. Ainda que ache a comparação um tanto forte e equivocada, a proposta de contar uma saga familiar lembra muito algumas passagens da obra prima de Francis Ford Coppola. Na maioria de minhas análises feitas aos longas de Bollywood citei a falta de originalidade dos produtores, mas neste caso reconheço todo o trabalho de pesquisa e meticulosa construção do roteiro, adotando valores, costumes e tradições daquele país. Apesar de ter iniciado o longa sem grandes expectativas, sai da exibição muito surpreso e contente.

Entrar no roteiro obviamente significa estragar algumas surpresas que são de cair o queixo. Por isto, prefiro mencionar que a história de Gangs of Wasseypur é baseada na vingança. Mas não é uma vingança qualquer, é um tipo de vingança que passa de pai para filho, e segue por gerações. Após o chefe da cidade de Wasseypur expulsar Shahid Khan ao descobrir que ele estava roubando trens utilizando seu álibi, uma grande rivalidade entre estas duas figuras se inicia. Da década de 1940 até 2009 assistimos a fortes episódios que mesclam suor, lágrimas e muito, mas muito sangue.

A paciência é uma virtude que deve ser levada em conta para conseguir extrair o melhor desta produção. Tive que acompanhar com um caderninho, pois é quase impossível se lembrar de tantos nomes, cargos e rivalidades pessoais de cabeça. Além de ser uma aula de história da Índia, destaco os vários objetos secundários de análise, como a relação dos homens com as mulheres, os casamentos comprados, o real significado da lealdade e a criação dos filhos por uma cultura diferente da que estamos acostumados aqui no ocidente. Pela magnitude envolvida, temos pelo menos duas renovações completas do elenco, por isto a atenção deve ser dobrada. Obviamente, as cinco horas tornam o filme pesado. As cenas de violência se repetem tanto que parece que estamos em um tedioso looping de eventos que envolve coerção, seguida de ameaça, assassinato e consequência. É quando fugimos deste infeliz padrão que temos as melhores cenas de Gangs of Wasseypur.

A trilha sonora, que geralmente é o erro dos filmes de Bollywood, aposta em músicas com duplo sentido que fecham com o que é apresentado na tela. Agradeço aos produtores por não ter seguido a maré de Bollywood ao não envolver cenas de dança em um filme de ação. A direção, por vezes obscura, apostou por contar a história em terceira pessoa, com um narrador que tenta explicar algumas passagens para não perder seu público e com a maioria das tomadas partindo do alto – o que foi um erro – já que no começo do filme assistimos a um ataque a uma cidade como se estivéssemos em um jogo de vídeo game, o que gerou um resultado espetacular e uma pequena ponta de decepção pelo mínimo uso desta técnica.

Para todos os amigos que pretendem assistir a este longa, fica um aviso: o lançamento no mercado indiano foi dividido em duas partes, cada uma com 160 minutos. Preste atenção, não vá acabar a primeira parte achando que viu o filme inteiro. A página no IMDB não foi dividida pelo fato deste filme ter sido rodado em sua totalidade no seu lançamento, em Cannes. Aliás, este filme entrou no Top 250 recentemente – o que deve despertar o interesse de muita gente.

NOTA: 7/10

IMDB

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