The Theory of Everything (A Teoria de Tudo) – 2014

Com muito orgulho trago a primeira análise em língua portuguesa do filme The Theory of Everything (A Teoria de Tudo, no Brasil), indicado para vários Golden Globes e uma das grandes apostas ao Oscar.

Será que vão pegar leve? Como ele teve filhos naquela situação? A esposa dele traia ele com o empregado?

É sempre problemático levar as telas do cinema a biografia de uma pessoa que ainda vive. Várias eram as perguntas que os amantes da sétima arte faziam tão logo foi anunciado o avanço deste ambicioso projeto de tratar sobre Stephen Hawking, a mente mais brilhante de nosso tempo. Para evitar as controvérsias, a Working Title comprou os direitos da obra ‘Travelling to Infinity: My Life with Stephen’, escrita pela primeira mulher do físico teórico britânico. Ainda que seja impossível retratar de maneira satisfatória a vida tão sofrida, e, ao mesmo tempo, tão rica de Hawking, a tentativa de condensar a história de vida em duas horas não deixa campo para reclamação.

O filme começa com os primeiros dias do doutorando Hawking (Eddie Redmayne) em Cambridge, onde ele se apaixona pela doce Jane Wilde (Felicity Jones) e cria um forte laço de amor com a jovem. Com apenas 24 anos, Hawking recebeu o diagnóstico de esclerose lateral amiotrófica junto da notícia que ele teria apenas dois anos de vida. Após um período de depressão. ele aceita seu destino e tenta viver da melhor maneira possível: além de se casar com Jane e ter um casal de filhos, o físico resumiu seu doutorado estudando a teoria de Roger Penrose e desenvolvendo brilhantes trabalhos que refletem até hoje nos estudos avançados sobre a criação do planeta e a teoria dos buracos negros.

Passada a fase do drama pessoal de Hawking, a metade final do filme explora o drama familiar: Jane não se considera preparada para criar seus filhos e dividir as responsabilidades e cuidados que Stephen necessita. Ela acaba se envolvendo com Jonathan (Charlie Cox) – que, mais tarde, se tornaria seu marido – e cria uma polêmica na família ao anunciar que estava grávida do terceiro filho do físico, mesmo com sua saúde extremamente debilitada. O que deixa a desejar, no entanto, é a rápida pincelada nas três décadas seguintes da vida de Stephen. Após a traqueostomia feita em 1985 (que retirou por completo a sua capacidade de falar) a pressa para concluir a história é tão grande que o espectador desatento pode pensar que seu casamento com Jane acabou logo depois de sua saída ao hospital (na verdade, o rompimento ocorreu 10 anos depois deste incidente). Seu relacionamento com Elaine Mason é retratado de forma superficial, e não explora nenhuma das várias polêmicas que tomaram conta da mídia (como os possíveis abusos físicos e a proibição imposta pela nova mulher de manter contato com sua ex).

Eddie Redmayne, que já havia feito uma boa participação em My Week with Marilyn e Lés Miserables, dá um show ao passar pelas várias fases da vida do físico. Desde seu tique nervoso de sua juventude até os anos recentes, é notável a dedicação no papel. Fazer um personagem cadeirante é um desafio extra, e o rapaz provou que realmente tem futuro. A trilha de Jóhann Jóhannsson é espetacular, uma das melhores que ouvi nos últimos anos. Não apenas pela leveza do toque do piano, mas por conseguir mesclar tons que repassam ao público o drama vivido por Hawking, sem se tornar depressivo – o que seria um grande problema. A impecável fotografia aos redores de Cambridge também merecia uma indicação ao Oscar – aliás, fotografia vai ser uma das categorias mais disputadas da premiação, pode anotar e cobrar.

Os físicos talvez fiquem decepcionados com a forma pela qual a carreira Hawking é tratada aqui. Os produtores claramente fizeram um esforço extra para encaixar várias frases de efeito e passar ao público suas principais contribuições para a ciência, mas este senhor já publicou tanta coisa e escreveu tanto sobre assuntos tão variados que, realmente, um filme seria necessário apenas para tratar de tais aspectos.

Mas que fique claro: estamos diante de um longa que tem tudo para fazer um tremendo sucesso. Por fora, vemos um romance que passa pelas mais duras provas que a vida pode oferecer. Mas The Theory of Everything, em última instância, é um filme completo que oferece tudo o que este mesmo gênero drama/romance, por vezes tão batido, necessita para se renovar: uma história bem contada, com personagens de traços bem definidos e um toque de roteiro cativante, ainda que triste. Palmas!

 

NOTA: 8/10

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