The Interview (A Entrevista) – 2014

Esta é a primeira crítica em língua portuguesa do filme The Interview (A Entrevista, no Brasil).

Roger Ebert dizia que a análise de um filme deve englobar seu contexto de produção. Se The Interview não tivesse toda a repercussão que ganhou neste último mês, com hackers norte-coreanos por trás do escândalo da Sony, certamente estaríamos falando de uma comédia pastelão que faz graça com um líder do país mais fechado deste planeta. Mas, por conta justamente da reação da Coreia do Norte a esta produção, foi criado um ambiente favorável para a discussão de importantes tópicos, especialmente no que diz respeito à liberdade de expressão no cinema.

Dave Skylark (James Franco) e seu produtor Aaron Rapoport (Seth Rogen) são os responsáveis pelo sucesso do “Skylark Tonight”, um programa de televisão bastante alternativo, conhecido por trazer revelações de celebridades (Eminem declarando sua homosexualidade e Rob Lowe dizendo que é careca, por exemplo). Enquanto o mundo assiste as novas ameaças da Coreia do Norte aos Estados Unidos, Dave descobre que o ditador Kim Jong-un é seu fã. A tentativa da dupla para realizar uma entrevista com o ditador é vista pelos idealizadores do programa de forma diferente: enquanto o apresentador visa apenas o reconhecimento mundial e a grande audiência que uma entrevista exclusiva poderia gerar, o produtor enxerga com bons olhos a oportunidade de levar adiante seu projeto pessoal para tornar Skylark Tonigh um programa mais sério. Apesar das diferenças criativas, os dois concordam que eles devem tentar falar com o líder norte-coreano de qualquer maneira. No entanto, a CIA entra na jogada e pede para Dave e Aaron salvarem o mundo e assassinarem Jong-un – o que, é claro, gera uma série de problemas.

Obviamente o roteiro desenvolve-se da mesma forma que a maioria dos filmes estrelados pela dupla de protagonistas, com passagens recheadas de insinuações de todos os tipos, estereótipos variados, cenas de sexo, e um desfecho em que o lado do bem – é claro – sai com sucesso de uma missão realmente impossível. Isto não significa que o filme seja um completo fracasso: os primeiros quarenta minutos de exibição são surpreendentemente positivos, com muito humor negro e boas sacadas. Alguns amigos críticos desenrolaram sua negativa a este filme argumentando apenas pelas cenas finais, que propõem algo fora do comum e do razoável. Discordo deles pelo fato de que a principal mensagem que o longa quis passar era a de confrontar a manipulação a todo custo feita pelo regime norte-coreano através da figura de seu líder- o que deveria acarretar na morte do mesmo para a conclusão proposta no roteiro (tão polêmica, por sinal).

The Interview entra para os livros de história como a primeira produção cinematográfica a criar um mal estar internacional entre dois regimes inimigos. O ataque cibernético contra a Sony, classificado como uma prática terrorista pelo governo americano, além das várias ameaças do grupo ligado ao regime norte-coreano sobre um possível atentado nos cinemas que exibissem os filmes são apenas alguns dos episódios de uma história que parece longe de ter um final.

Fica a esperança que a transição do pequeno país para a democracia, relatada nos últimos minutos de rodagem, aconteça algum dia. Mais que uma comédia, The Interview ganhou o status de um filme porta voz da liberdade.

NOTA: 6/10

IMDB

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