Life Itself (A Vida de Roger Ebert) – 2014

Por Waldemar Dalenogare Neto

Qualquer pessoa que queira escrever sobre cinema de forma séria deve ter uma referência. Com muito orgulho, posso dizer que sou um profundo admirador de Roger Ebert, o maior crítico de nossos tempos. Se Pauline Kael um dia disse que a crítica de cinema também era uma expressão de arte, Ebert soube transformar a arte do cinema acessível para todos.

Para quem não o conhece, vou resumir sua história: Roger Ebert trabalhou por mais de quatro décadas com crítica de cinema, tornando-se no nome mais conhecido dos Estados Unidos por conta de sua imensa popularidade no jornal Chicago Sun-Times. Além de ter sido o primeiro crítico a ganhar o Pulitzer Prize, também foi o responsável pela popularização em massa de programas de TV relacionados a comentários de filmes graças a sua longa parceria com Gene Siskel. O jogo de gato e rato entre os dois era real, e as discussões sobre um filme poderiam durar o programa inteiro – geralmente com visões opostas e muito bom humor. Ebert passou a enfrentar graves problemas após descobrir uma neoplasia de glândula salivar em 2002 – o que mais tarde lhe custaria sua fala e a habilidade de comer. Por conta das várias cirurgias, Ebert abandonou a televisão em 2008, mas ainda assim continuou a escrever suas críticas e passou a se comunicar por intermédio do computador.

Ao assistir Life Itself não pude conter as lágrimas. Desde quando comecei a colaborar no IMDB – e mais tarde já no staff do site – sempre tive Ebert como o meu grande ícone da crítica. E digo que não foi fácil acompanhar seus últimos anos de vida. Certo dia, após ter lido uma notícia sobre o estado de saúde de Roger, mandei um e-mail pra ele desejando força e dizendo que estava torcendo por ele. Para minha surpresa, um mês depois recebi como resposta: “Waldemar. Thanks for the kind words. Cheers, R.” Apenas um bocado de palavras soltas para alguns, mas que para mim são palavras especiais até hoje.

O documentário filmado por Steve James consegue trabalhar com uma sensibilidade ímpar em duas distintas frentes de batalha: a primeira, de trazer a biografia homônima de Roger publicada em 2011 para as telas – o que já era uma tarefa difícil considerando que as memórias de Ebert poderiam tranquilamente ser adaptadas para uma mini-série; o outro desafio era encaixar Roger Ebert dentro de seu próprio filme – e o diretor foi perfeito ao misturar passagens do livro com cenas do crítico em sua casa ou no hospital. A rivalidade com Siskel é retratada com muita propriedade, e não podia ser diferente, já que a parceira entre os dois só acabaria com a morte de Gene, em 1999, mais de duas décadas após estrearem na televisão. Os emocionados depoimentos de Martin Scorsese, Errol Morris e Werner Herzog dão brilho a uma carreira impecável e a uma vida dedicada ao cinema. Ninguém soube tanto de filmes quando Ebert. Poucos tiveram o dom de mediar de forma tão eficaz um longa para o grande público. Graças a Ebert, a crítica de cinema é reconhecida no mundo inteiro como algo necessário para o desenvolvimento de películas.

Recentemente entrei em contato com uma distribuidora brasileira oferecendo minha ajuda na legendagem do filme. Ouvi como resposta que o documentário somente será lançado por aqui caso vença o Oscar (o longa teve um lançamento limitado no festival do Rio) – o que nos leva a outra questão: qual a possibilidade de Life Itself ganhar um prêmio da Academia? Eu diria que as possibilidades são enormes, já que é um filme de cinema feito para o público de cinema. Mas considerando as últimas premiações da Academia nesta categoria, ficaria com um pé atrás até assistir Keep on Keepin’ On e acompanhar a recepção pela crítica americana.

Thumbs up, Roger. See you at the movies!

NOTA: 9/10

IMDB

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