Boyhood (Da Infância à Juventude) – 2014

Boyhood (Da Infância à Juventude, no Brasil): querendo ou não, você vai ouvir falar muito desde filme nos próximos meses. Afinal, além de ser um dos principais favoritos ao Oscar, este é o ponto máximo da maestria da edição de Hollywood.

Toda vez que olhava o perfil de Richard Linklater no IMDB me chamava a atenção um longa chamado ’12 Years’, que não tinha nenhuma data de lançamento e nem mesmo uma que outra informação. No ano 2006, quando comecei a colaborar para o IMDB, a informação de que Ethan Hawke seria protagonista ainda era uma das poucas notícias confirmadas pela produção. Chega a ser engraçado, pois nos fóruns é possível observar várias discussões que davam o projeto como morto. Afinal, filmar um filme por doze anos seguidos demanda não apenas uma organização ímpar, como também todo um projeto e financiamento altamente estruturado.

12 Years mudou de nome para Boyhood para se diferenciar do vencedor do Oscar do último ano, ganhou trailer e começou a despertar a atenção da crítica com a estreia em Sundance. A partir dali ficou claro que Linklater não estava para brincadeira: seu filme realmente é impactante e de alto nível.

A ideia de fazer um longa “cápsula do tempo” não é nova: alguns diretores europeus já tentaram fazer o mesmo, mas nenhum com tamanho sucesso e competência. Somos apresentados a Mason (Ellar Coltrane), uma criança que divide o quarto com sua irmã, Samantha (Lorelei Linklater), e é criado por sua mãe (Patricia Arquette). Ele possui pouco contato com seu pai (Ethan Hawke), mas faz questão de aproveitar todos os momentos em que os dois se unem. Durante o período de doze anos, acompanhamos a vida de Mason e também alguns subplots, como a luta de sua mãe para se formar na faculdade e conciliar seus dois filhos com seus romances, a vida escolar de Samantha, e a nova família de seu pai.

Quando citei no primeiro parágrafo que Boyhood é o ponto máximo da maestria da edição americana, permita-me fazer uma breve comparação com dois longas e partiram da mesma proposta e optaram por rumos diferentes: o filme britânico Everyday teve filmagens no período de cinco anos para apresentar seu protagonista na prisão e dar uma visão mais fiel sobre as mudanças de personalidade enfrentadas neste período. O resultado foi péssimo, já que a compressão de várias e várias tomadas de filmagem em apenas duas horas não parecia suficiente para a proposta do diretor. Um verdadeiro fracasso. Por outro lado, a série de documentários Up, de Michael Apted, não consegue mostrar de forma alguma trazer o encanto que Linklater desperta em seu espectador. É incrível ver que este filme filmado em 39 dias durante mais de uma década consegue captar de forma sutil e poderosa a beleza da infância e a malícia da adolescência.

Os detalhes tornam o filme especial: desde os videogames do garoto até o notável avanço tecnológico que passa a unir cada vez mais pai e filho, a vida de Mason é explorada através de dramas familiares, alegrias, tristezas e dúvidas, algo comum da época de transição. Ver a criança se tornar um homem com responsabilidades é mágico, e desperta um sentimento que poucas vezes senti antes em um longa. E digo isso sem peso na consciência, já que o amigo Richard Roeper chegou a citar que Boyhood é um dos melhores filmes que ele viu em sua vida. Se em uma cena Mason estava vestido de Harry Potter esperando o lançamento de Prisioneiro de Azkaban, algumas tomadas depois o jovem passa a questionar a utilidade do Facebook. Preocupações de seu tempo, de seu contexto.

Mágico, primoroso, espetacular! Além da indicação para melhor filme, acredito que Patricia Arquette deva receber uma nomeação merecida para melhor atriz coadjuvante (adianto que a disputa desse ano vai ser bastante acirrada, já que também temos nomes fortes como Jessica Chastain (Interstellar), Keira Knightley (The Imitation Game) e Emma Stone (Birdman). Linklater deve ser nomeado para melhor diretor e melhor roteiro original – sendo considerado favorito em ambas as categorias. A única dúvida que tenho é se o trabalho de Ethan Hawke será suficiente para garantir uma nomeação para melhor ator coadjuvante (eu apostaria meu dinheiro que sim, mas não posso garantir por conta do histórico recente dessa categoria).

Linklater declarou que tem material suficiente para lançar uma edição de luxo deste longa com a bandeira da The Criterion Collection. Mal posso esperar!

NOTA: 9/10

IMDB

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