Der letzte Mann (A Última Gargalhada) – 1924

Como eu gostaria de ouvir as pessoas falarem mais sobre pérolas do cinema mudo. Entendo que a voz faz uma falta tremenda em um filme. Certa vez ouvi de uma pessoa o seguinte raciocínio: por qual motivo uma pessoa deixaria de ver um filme a cores recente para ver algo velho sem fala? Após o pavor interno, entendi perfeitamente seu ponto de vista. Apesar de discordar, o apelo dos filmes da década de 1910 ou 1920 está diretamente ligado ao interesse de uma determinada pessoa pelo cinema.

Fico feliz com este espaço pelo contato que me proporciona com meus amigos e leitores. Vocês, que assim como eu, amam e/ou respiram cinema, devem saber que Der letzte Mann (A Última Gargalhada, no Brasil) foi responsável por duas inovações na maneira de como o cinema era visto e pensado. Uma delas pode ser vista, em sua forma final, três anos mais tarde em Sunrise, conforme já discutido aqui no site. O alemão F. W. Murnau nunca se contentou com o que considerava uma “aparente linearidade” no modo de como as câmeras se alinhavam nos sets. Seu grande desejo era poder retratar a ação do ponto de vista de seus personagens. A técnica conhecida como Entfesselte Kamera foi introduzida neste filme, e permitiu uma maior mobilidade ao adaptar os aparelhos de gravação em cabos ou até mesmo em cima de uma bicicleta, para poder captar ângulos nunca antes imaginados.

Outro fato que torna este filme objeto de grande interesse pelos historiadores e estudiosos do cinema é que Der letzte Mann foi o mais claro exemplo de um gênero que não deu certo na Alemanha: o Kammerspiel. Alvo de adoração de Ingmar Bergman, como pode ser visto em Sasom i en spegel, a proposta expressionista era diferente de tudo o que era proposto até então. O objeto de análise era extremamente limitado – geralmente contava a história do declínio de uma pessoa, como é o caso – e as imagens valem mais do que palavras.

No filme de Murnau, acompanhamos a vida de um recepcionista que trabalha em um luxuoso hotel de Berlim (Emil Jannings). Com uma idade relativamente alta, ele deixa seu cargo e passa para a lavanderia. O problema é que isto gera uma reação em cadeia, muito pelo fato de seus vizinhos e de sua família observarem sua decadência como uma vergonha muito grande. Sem nenhum diálogo direto (a comunicação é feita através de papéis), os intertítulos foram utilizados apenas uma vez, e devo dizer que de uma forma surpreendente.

O filme poderia muito bem ter acabado com a imagem do recepcionista amargurado, mas então recebemos a seguinte frase: “Neste ponto, a história poderia acabar. O velho não desejaria mais nada da vida a não ser a morte. Contudo, o autor teve pena dele e preparou um epílogo improvável.”  A cena a seguir, que mostra o velho desfrutando de uma improvável herança, é extremamente interessante, muito a partir deste contato peculiar entre diretor e espectador.

A atuação de Emil Jannings é absolutamente fantástica! Nesta época ele já era o principal ator alemão, e, no meio de uma das maiores crises financeiras já registradas na história (hiperinflação de 1923), muitos diziam que suas interpretações davam forças para o povo seguir adiante. O êxito de Murnau, Jannings e do diretor de fotografia Karl Freund pode ser comprovado com as propostas milionárias dos estadunidenses.

Temos duas versões deste belo filme: a original, de cerca de uma hora, e o corte de 90 minutos. Nos DVD’s lançados a partir de 2008 vocês podem encontrar a edição mais longa, também disponível na internet. Vale conferir!

NOTA: 8/10

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