To Have and Have Not (Uma Aventura na Martinica) – 1944

Dois dias atrás, Lauren Bacall partiu. Ao abrir o Facebook, a maioria dos meus amigos estadunidenses que repercutiram a mensagem diziam que todas as lendas mencionadas na música Vogue, da Madonna, agora estavam mortos. Como muitos não conhecem e nem gostam muito de cinema, os perdoo. Por outro lado, infelizmente no Brasil uma atriz da era de ouro de Hollywood só é respeitada quando a mesma tem uma estatueta no seu currículo. A cobertura da carreira desta mulher na mídia brasileira beirou o ridículo. Bacall foi esposa de Humphrey Bogart por doze anos, e viu seu marido sofrer com o destruidor câncer no esôfago. Muito mais que uma guerreira, conseguiu aos poucos deixar de lado a alcunha de “esposa de Bogart” para brilhar por conta própria.

França ocupada pelos nazistas: após o estabelecimento do regime de Vichy, Harry Morgan (Humphrey Bogart) recebe ofertas para transportar membros da Resistência Francesa em seu pequeno barco, localizado na exótica Martinica. Johnson (Walter Sande) acaba de lhe prometer um pagamento de uma antiga dívida, que rondava os 900 dólares. Mas após Marie Browning (Laren Bacall) roubar a carteira de Johnson e ser pega por Harry, uma troca de tiros acaba matando o personagem interpratado pro Sande.  Apesar de não querer se envolver com a Gestapo, Morgan aceita transportar membros da Resistência, tentando recuperar o prejuízo deixado por Johnson, que teve seu dinheiro confiscado pelos alemães.

Seu primeiro filme foi justamente um de seus mais marcantes. Não apenas por protagonizar par romântico com seu futuro marido, mas por entregar para o cinema uma atuação de classe. Seu olhar e seu estilo contrastavam com uma voz rouca, mas de um tremendo poder. To Have and Have Not (lançado no Brasil com o péssimo título de Uma Aventura na Martinica) foi adaptado do livro homônimo de Ernest Hemingway. O diretor Howard Hawks, na época do lançamento de seu longa, disse que havia apostado com o autor que poderia fazer um ótimo filme mesmo pegando seu pior livro. Apesar de muita coisa ter mudado da história escrita em 1937, a tensão por conta da Segunda Guerra Mundial parecia justificar algumas opções óbvias.

Casablanca foi um estrondoso sucesso por conseguir equilibrar romance, drama e suspense a partir de uma perspectiva de um problema presente. Não tenha dúvidas: To Have and Have Not tentou se basear neste padrão recém estabelecido pela indústria para carregar multidões aos cinemas. Tanto é que Martinica apenas foi escolhida como a localização do filme devido ao interesse dos estadunidenses e europeus por regiões outrora desconhecidas. Se por um lado o filme não agradou a Academia, que preferiu se afastar de dramas de guerra justamente naquele ano, podemos dizer que a estrela principal do filme foi também o motivo de seu sucesso comercial. Humphrey Bogart com seu jeitão mal encarado carrega nas costas o peso de suportar vários furos na história, e ainda assim convence. A construção do romance com a personagem de Bacall (que mais tarde se repetiria na vida real), parece muito apressada. Não consigo imaginar Cary Grant, o ator na cabeça de Hawks, fazer um trabalho melhor, já que seu excesso de classe nas cenas não iria proporcionar uma sensação de realidade tão grande quanto de Bogart.

Chance para acompanhar um clássico da década de 1940, assistir a célebre frase “You know how to whistle, don’t you, Steve? You just put your lips together and blow” e se encantar com o charme de Lauren Bacall.

NOTA: 7/10

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