La chinoise (A Chinesa) – 1967

Durante minha graduação, no curso de história, um professor ficou uma tarde inteira explicando as maravilhas do movimento de maio de 1968, na França. Levantei a mão e dei o exemplo do filme La chinoise (A Chinesa, no Brasil), que já tratava sobre toda tensão estudantil um ano antes. A aula silenciou, e o professor ficou meio perdido, sem saber o que falar.

Sempre que posso estabeleço relações do cinema com a história. Durante minhas aulas, tento ao máximo explorar longas que tratam sobre determinado período histórico, já que considero esta ferramenta fundamental para uma aproximação com o aluno e seu maior interesse. Godard parecia prever que algo grande estava para acontecer em seu país. Afinal, o título original do longa (La chinoise, ou plutôt à la chinoise: Un film en train de se faire)  nos mostra exatamente isto: um filme ainda em construção.  No ano de 1967, ele abandonou seu estilo de narrativa para apostar em roteiros mais focados a uma ideologia. Explico: no começo de sua carreira, era fácil perceber que os filmes de JLC estavam baseados na clássica fórmula problema – conflito – resolução. A partir de 2 ou 3 choses que je sais d’elle, o francês direcionou sua obra para uma análise das ideias, neste caso a decadência da sociedade parisense perante uma burguesia feroz, algo bastante semelhante ao que Bruñuel fez, e que seguiria com o polêmico Week End.

Ao asssitir La chinoise pela segunda vez, pude pesquisar mais sobre a história de sua produção e fui atrás da inspiração do diretor. Ele ainda utiliza jump-cuts e por vezes leva a quebra da quarta parede de forma tão leve que leva o espectador a acreditar que estamos testemunhando um documentário com integrantes da facção maoísta Aden Arabie. Tomando a obra Os Demônios (de Fyodor Dostoyevsky) como referencial máximo, a adaptação nos mostra como cinco estudantes discutem filosofia, política e sociedade através de Marx, Lenin e Mao. Cansados de teorizar sobre uma revolução, eles decidem que somente a violência liberta, e optam por medidas extremas.

É interessante observar o aspecto doutrinário do filme. Tomando em conta as redes comunistas do período, a leitura dos clássicos e as várias frases marcantes do período (bem resumidas na passagem “O imperialismo americano é um tigre de papel”), temos uma divisão de cenas e diálogos. Eles não sugerem uma continuidade, muito pelo fato de, na maioria das vezes, formarem passagens independentes do restante da produção. O filme foi alvo uma tentativa de censura de políticos americanos que se mostraram contrariados com as críticas do diretor a guerra do Vietnã, especialmente ao Presidente Johnson. Seu lançamento na França ocorreu em agosto de 1967, mas somente no ano seguinte ele seria amplamente divulgado pelos grupos estudantis das principais universidades francesas. Uma inspiração para a luta que estava prestes a começar.

NOTA: 6/10

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