Alphaville, une étrange aventure de Lemmy Caution (Alphaville) – 1965

Alphaville, une étrange aventure de Lemmy Caution (Alphaville, no Brasil), foi a primeira aventura de Godard na ficção científica. O francês, que na época de produção já era conhecido como “o rei do improviso”, apresenta um filme bem completo e contextualizado. O título bem que poderia ser Tarzan vs. IBM (o preferido do diretor). Mas para os franceses, o filme é mais um daquele tipo “ame ou odeie”.

O fato é que boa parte dos fãs de Godard torce o nariz ao analisar a história cujo roteiro foi escrito em guardanapos. O dinheiro arrecadado pelo produtor André Michelin para o financiamento da obra foi obtido após Godard anunciar que adaptaria a história de Lemmy Caution, uma espécie de 007 do cinema francês (apesar do personagem ser estadunidense). A brusca mudança na personalidade deste ícone dos filmes B, no entanto, não foi boa nem para o diretor e nem para o ator Eddie Constantine, a curto prazo.

O agente Lemmy Caution (Constantine) é enviado para a cidade de Alphaville, capital de uma galáxia, com a missão de resgatar uma pessoa desaparecida. Para tal, ele viaja disfarçado como jornalista do Figaro-Pravda (risos). Tudo em Alphaville é estranho: as mulheres são máquinas sexuais e atiradores visam matar apenas por diversão. Mas o que intriga o agente é a máquina Alpha 60, que controla o povo e não permite o desenvolvimento das emoções humanas. Mas, em pouco tempo, a missão de Caution passa a ser uma caçada ao professor Von Braun (Howard Vernon), homem por trás do sucesso da máquina. A enigmática Natasha (Anna Karina) vira elemento chave para a resolução do caso.

Se hoje Alphaville é uma excelente história futurista, esta opinião não era partilhada em 1965. O uso das ruas de Paris como sede de um governo e a aposta na filmagem de máquinas para sustentar o argumento principal do roteiro não chamou a atenção do grande público, já que estava muito longe do que era apresentado pelo cinema americano. Mas esta película se destaca por vários detalhes: a opção por colocar mulheres em um segundo plano (elas são apenas números). apesar de ser polêmica, foi satisfatoriamente explicada graças aos poemas de Paul Éluard. O uso das equações  E = mc² e E = hf nas transições de cenas deixam claro o quanto a crítica a racionalidade excessiva do governo é tratada aqui.

Falando nisso, por poucas vezes vi um filme acabar com a célebre frase “eu te amo” de maneira tão potente. Isto ocorre devido ao fato do romance jamais ser  elemento principal no plot. Ele se desenvolve secundariamente na história. Anna Karina atua bem, mas o pouco tempo de exposição na tela da atriz apenas reforça o pensamento de que este longa foi construído 100% em torno de Eddie Constantine. Conhecido nas salas alternativas de cinema de Paris, Constantine pode ser aquele ator que chamamos de “o homem de um só papel”. Atuando pela oitava vez no papel de Caution, somente quinze anos depois o ator conseguiu retornar as telas com seu personagem. A explicação para o hiato deve-se pelo fato de nenhum produtor querer arriscar a continuação de um longa tão sensível. Ao contrário de James Bond, que atua em histórias sem ligação direta entre si, a ideia era moldar a persona de Caution junto com o espectador. Se ele era vingativo no segundo filme, no oitavo também deveria ser. Mas isto não ocorreu: Godard simplesmente pegou o ator em seu contexto e criou suas falas e sua personalidade tomando café da manhã antes das filmagens.

Este foi o filme inspirou Equilibrium. Definitivamente não é o melhor filme de Gordard, e talvez seja o mais afastado do restante de sua filmografia. Mas é um cult classic, sem sombra de dúvidas.

NOTA: 7/10

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