Belle Toujours (Sempre Bela) – 2006

Rosebud; A mala de Pulp Fiction. Apenas dois de tantos mistérios do cinema americano. Mas, em se tratando de cinema europeu, talvez um de seus maiores mistérios seja as tomadas finais de Belle de Jour. Henri Husson (Michel Piccoli) chega perto do marido traído de Séverine (Catherine Deneuve) e começa a murmurar em seu ouvido. O que será que ele falou? Será que ele contou ao paraplégico que sua amada passava as tardes trabalhando em um bordel de Paris? Belle Toujours tenta resgatar este segredo a partir da interpretação do português Manuel de Oliveira.

Certa vez, após assistir Barbara (2012, de Christian Petzold) uma amiga me falou que não gostava de cinema europeu devido a lenta progressão do roteiro e do preciosismo excessivo em determinadas situações. Apesar de discordar da visão dela, não consigo parar de pensar na reação da moça caso assistisse ao filme do popular cineasta português. Se me permitem o trocadilho, de jure Belle Toujours é um filme muito curto, mas de facto os 65 minutos de duração podem se tornar uma eternidade. As transições de cenas são as mesmas, o personagem principal segue a risca uma rotina e o diretor explora ao máximo os pequenos detalhes de Paris para criar um build-up para o insatisfatório encontro final entre Henri e Séverine.

A grande questão do filme é descobrir o que Henri murmurou em 1967. Como nem mesmo Bruñuel sabia explicar sua obra, Oliveira preferiu não se posicionar. Ele fecha o filme e deixa o espectador com as mesmas interrogações do minuto inicial. Apesar de respeitar sua decisão, me pergunto então qual foi a motivação de fazer este longa: apenas homenagear o espanhol ou lucrar em cima de um dos maiores clássicos do cinema europeu da década de 1960? Pelo respeito que tenho pelo centenário diretor, me recuso a acreditar na segunda opção, mas em determinados momentos admito que esta sensação passou algumas vezes pela minha cabeça.

Enquanto Piccoli interpreta o mesmo personagem do longa original, Séverine desta vez é interpretada por Bulle Ogier, que participou de alguns filmes de Bruñuel. Não tenho dúvida de que Deneuve rejeitaria qualquer proposta para retomar seu personagem até mesmo pela sua documentada amizade e respeito a Luis. O jantar final tem diálogos insatisfatórios, e apesar da bonita menção ao surrealismo nos minutos finais, Belle Toujours não acrescenta nada a experiência do clássico de Bruñuel.

NOTA:5/10

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